miércoles, 14 de marzo de 2007

Luís Vaz de Camões:"Éclogas"



Luís Vaz de Camões

Éclogas




.FRONDOSO e DURIANO, pastores

.Prosseguindo a passada, a D. António de Noronha

.ALMENO e AGRÁRIO, pastores

.De ALMENO e BELISA, continuando com a passada

.Intitulada dos Faunos, dirigida a D. António de Noronha

.ALICUTO, pescador; AGRÁRIO, pastor

.PISCATÓRIA

.UMBRANO e FRONDÉLIO, pastores


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FRONDOSO e DURIANO, pastores



A üa Dama:


Cantando por um vale docemente,
deciam dous pastores, quando Febo
no reino de Neptuno se escondia.
De idade, cada um era mancebo,
mas velho no cuidado, e descontente
do que lhe ele causava parecia.
O que cada um dizia,
lamentando seu mal, seu duro Fado,
não sou eu tão ousado
que o ouse a cantar sem vossa ajuda;
porque, se a minha ruda
frauta, deste amor vosso for dina,
posse escusar a fonte cabalina.

Em vós tenho Helicon, tenho Pegaso;
em vós tenho Calíope, em vós Talia
e as outras sete irmãs do fero Marte;
em vós perde Minerva sua valia;
em vós estão os sonos de Parnaso;
das Piérides em vós se encerra a arte.
Coa mais pequena parte,
Senhora, que me deis da ajuda vossa,
podeis fazer que eu possa
escrever ao sol resplandecente;
podeis fazer que a gente
em mim do grão poder vosso se espante
e que vossos louvores sempre cante.

Podeis fazer que creça de hora em hora
o nome lusitano, e faça enveja
a Esmirna, que de Homero se engrandece.
Podeis fazer também que o mundo veja
soar na rude frauta o que a sonora
cítara mantuana se merece.
Já agora me parece
que podem começar os meus pastores
tratar de seus amores;
porque, ainda que presentes não estejam
as que eles ver desejam,
mudança do lugar, menos de estado,
não muda um coração de seu cuidado.

Já deixava dos montes a altera
e nas salgadas ondas se escondia
o sol, quando Frondoso e Duriano,
ao longo de um ribeiro que corria
pola mais fresca parte da verdura,
claro, suave e manso, todo o ano,
lamentando seu dano,
vinha já recolhendo o manso gado.
E um estando calado,
enquanto um pouco o outro se queixava,
após ele tornava
a dizer de seu mal o que sentia;
e, enquanto ele falava, o outro ouvia.

Vinham-se assi queixando aos penedos,
aos silvestres montes e aspereza,
que quase de seus males se doíam.
Ali as pedras perdiam sua dureza;
ali os correntes rios estar quedos,
prontos a suas queixas, pareciam;
e se as que podiam
estes males curar, que elas causavam,
o ouvido lhe negavam
por perderem de todo a esperança;
mas eles, que mudança
de amor com tantos males não faziam,
falando inda com elas lhes diziam:

FRONDOSO

Isto é o que aquela verdadeira
fé, com que te amei sempre, merecia,
sem nunca te deixar um só momento?
Como, cruel Belisa, te esquecia
um mal cuja esperança derradeira
em ti se tinha posto seu assento?
Não vias meu tormento?
Não vias tu a fé com que te amava?
Porque não te abrandava
este amor que me tu tão mal pagaste?
Mas, pois já me deixaste
coa esperança de ti toda perdida,
perca, quem te perdeu, também a vida.

DURIANO

Se os males que por ti tenho sofrido
– ó Silvana, em meus males tão constante! –
quiseras que algu' hora te dissera,
ainda que de duro diamante
fora tão cruel peito endurecido,
creio que a piadade te movera.
Já agora em branda cera
os montes são tornados e os penedos;
e os rios, que estão quedos,
sentiram meus suspiros, minhas queixas.
Tu só, cruel, me deixas,
que és, mais que montes e penedos, dura,
e fugitiva mais que a água pura.

FRONDOSO

Onde está aquela fala, que soía,
se com seu doce tom que me chegava,
a avivar-me os espíritos cansados?
Onde está o olhar brando, que cegava
o sol resplandecente ao meio-dia?
Onde estão os cabelos delicados
que, ao vento espalhados,
o ouro escureciam, e a mim matavam?
E a quantos os olhavam
causavam também novos acidentes?
Porque, cruel, consentes,
que goze outro a glória a mim devida?
Perca, quem te perdeu, também a vida.

DURIANO

Não vejo bem já que a meu mal espere,
senão se é esperar que morte dura
enfim me venha dar tua saudade.
Vejo faltar-me a tua fermosura;
a vontade me diz que desespere,
contradiz-me a razão esta vontade.
Diz que nüa beldade
em quem mostrou o cabo a natureza,
não há tanta crueza
que um tão firme amor desprezar queira
e üa fé verdadeira;
mas tu, que de razão nunca curaste,
porque era dar-me a vida, ma tiraste.

FRONDOSO

A quem, Belisa ingrata, te entregaste?
A quem deste, cruel, a fermosura,
que só a meu tormento se devia?
Porque üa fé deixaste, firme e pura?
Porque tão sem respeito me trocaste
por quem só nem olhar-te merecia?
E o bem que te queria,
que nunca perderei senão por morte,
não é de maior sorte
que quanto a cega gente estima e preza?
Se a tua crueza
foi nisto contra mim endurecida:
perca, quem te perdeu, também a vida.

DURIANO

Levaste-me meu bem num só momento;
levaste-me com ele, juntamente;
de cobrá-lo jamais a confiança;
deixaste-me, em lugar dele, somente
üa continua dor, e um tormento,
um mal em que não pode haver mudança.
Tu, que eras a esperança
dos males que me tu, cruel, causaste,
de todo te trocaste,
com Amor conjurada em minha morte.
Porém, se minha sorte
consente que por ti seja causada,
morte não foi mais bem-aventurada.

FRONDOSO

Não naceste de algüa pedra dura;
não te gerou algüa tigre hircana;
não foi tua criação entre a rudeza.
A quem, cruel, saíste desumana?
No Céu formada foi tua fermosura,
onde a mesma brandura e natureza;
esta tua dureza
donde teve princípio, ou a tomaste?
Porque, dura, enjeitaste
um verdadeiro amor que tu bem vias,
üa fé, que conhecias,
por outra de ti nunca conhecida?
Perca, quem te perdeu, também a vida.

DURIANO

Vai-se co seu pastor o manso gado,
porque de amor entende aquela parte
que a bruta Natureza lhe ensina.
O rústico leão sen nenhüa arte
do instinto natural só ensinado,
aonde sente amor, ali se inclina.
E tu, que de divina
não tens menos que Vénus e Cupido,
porque sequer co ouvido
um amar verdadeiro não socorres?
Ou porque te não corres
que te vença o leão em piadade,
se Vénus não te vence na beldade?

FRONDOSO

A mim não me faltava o que se preza
entre os celestes deuses, que formaram
a tua mais que humana fermosura;
em mim os voluntários Céus faltaram;
em mim se perverteu a natureza
düa cruel, fermosa criatura.
Mas pois, Belisa dura,
que do mais alto Céu a nós vieste,
e em peito celeste
um tal contrário pôde aposentar-se,
não é contrário achar-se
tamanha fé tão mal agradecida.
Perca, quem te perdeu, também a vida.

DURIANO

Por ti, a noite escura me contenta;
por ti, o claro dia me avorrece;
abrolhos para mi são frescas flores;
a doce filomela me entristece;
todo o contentamento me atormenta
com a contemplação de teus amores;
as festas dos pastores,
que podem alegrar toda a tristeza.
Em mim tua crueza
faz que o mal cada hora vá dobrando.
Ó cruel! Até quando
durará em ti um tal avorrecimento?
E a vida, em mi, que sofre tal tormento?

FRONDOSO

Fugiste de um amor tão conhecido,
fugiste de üa fé tão clara e firme,
e seguiste a quem nunca conheceste,
não por fugir de Amor, mas por fugir-me;
que bem vias que tinha merecido
o amor que tu a outrem concedeste.
A mim não me fizeste
nenhüa sem-razão, que bem conheço
que tanto não mereço;
fizeste-a àquele bem, firme e sincero,
que sabes que te quero,
em lhe tirar a glória merecida.
Perca, quem te perdeu, também a vida.

DURIANO

Crece cada hora em mim mais o cuidado,
e vejo que em ti crece juntamente
cada hora mais de mim o esquecimento.
Ó Silvana cruel, porque consente
o teu feminil peito delicado
esquecer-lhe um tão áspero tormento?
Tal avorrecimento
merece um capital teu inimigo;
não j'eu, que só contigo
estou contente, e nada mais desejo,
se algüa hora te vejo.
Tu és um só bem meu, üa só glória,
que nunca se me aparta da memória.

FRONDOSO

Olhos que viram já tua fermosura;
vida que só de ver-te se sustinha;
vontade, que em ti era transformada;
üa alma que a tua em si só tinha,
tão unida consigo quanto a pura
alma co débil corpo está pegada,
e agora apartada
te vê de si com tal apartamento...
Qual será seu tormento?
Qual será aquele mal que tem presente?
Maior é que o que sente
o triste corpo na última partida.
Perca, quem te perdeu, também a vida.

DURIANO

Regendo noutro tempo o manso gado,
tangendo minha frauta nestes vales,
passava a doce vida alegremente.
Não sentia o tormento destes males;
menos sentia o mal deste cuidado,
que tudo então em mim era contente.
Agora, não somente
desta vida suave me apartaste,
mas outra me deixaste
que, ao duro mal que sinto cá no peito,
me tem já tão afeito
que sinto já por glória minha pena;
por natureza, o mal que me condena:

Juntamente viver compridos anos
os Fadas te concedem, que quiseram
ajuntar-te com tal contentamento.
Pois para ti os bens todos naceram,
tormentos para mim, males e danos,
logra tu só teu bem; eu, meu tormento.
Nenhum apartamento,
Belisa, me fará deixar de amar-te,
porque em nenhüa parte
poderás nunca estar sem mim üa hora.
Consente pois agora
que, em pago desta fé tão conhecida,
perca, quem te perdeu; também a vida.

DURIANO

Veja-te eu, crua, amar quem te desame,
porque saibas que cousa é ser amada
de quem tu avorreces e desprezas.
Veja-te eu ser ainda desprezada
de quem tu mais desejas que te ame,
por que sintas em ti tuas cruezas;
sintas tuas durezas,
e quanto pode o seu cruel efeito
num coração sujeito.
Porque, em sentindo o mal que eu sinto agora,
espero que algu' hora
faça o teu próprio mal de mim lembrar-te,
já que não pôde o meu nunca abrandar-te.

FRONDOSO

Mil anos de tormento me parece
cada hora que sem ti e sem esperança
vivo de poder mais tornar a ver-te.
Sustenta-me esta vida tua lembrança;
a vida sobre tudo me entristece;
a vida antes perdera que perder-te.
Mas eu, se por querer-te,
um bem que em ti só tem seu firme assento
padece tal tormento
que inda espera por ti quem te desame,
ou ao menos te ame
com algum falso amor ou fé fingida,
perca, quem te perdeu, também a vida.

DURIANO

Então, cruel, verás se te merece
com tamanho desprezo ser tratada
üa alma, que de amar-te, só se preza.
Mas como podes tu ser desprezada,
se o menos que em ti fora, se parece,
abrandar pode montes e aspereza?
Porque se a Natureza
em ti o remate pôs da fermosura,
qual será a pedra dura
que a teu valor resista brandamente?
Quanto mais fraca gente,
que ao humano parecer não se defende,
e a mesma Vénus deusa ao teu se rende?

FRONDOSO

E pois fé verdadeira, amor perfeito,
tormento desigual e vida triste,
junta com um contino sofrimento
e em mal, em que todo o mal consiste,
não puderam mover teu duro peito
a amostrares sequer contentamento
de veres meu tormento;
mas antes isto tudo desprezaste,
e a outrem te entregaste,
por não me ficar nada em que esperasse,
senão quando acabasse
a vida, que a meu mal e tão comprida,
perca, quem te perdeu, também a vida.

DURIANO

Longo curso de tempo, e apartado
lugar, a um coração que está entregue
não podem apartar de seu intento.
Porque foges, cruel, a quem te segue?
Não vês que teu fugir é escusado,
que sem mim nunca estás um só momento?
Nenhum apartamento
– inda que a alma do corpo se aparte –,
poderá ausentar-te
desta alma triste que, continuamente,
em si te tem presente.
Torna, cruel; não fujas a quem te ama:
vem dar a morte ou vida a quem te chama.

A noite escura, triste e tenebrosa,
que já tinha estendido o negro manto,
de escuridade a terra toda enchendo,
fez pôr a estes pastores fim ao canto,
que ao longo da ribeira deleitosa
vinham seu manso gado recolhendo.
Se aquilo que eu pretendo
deste trabalho haver, que é todo vosso,
Senhora, alcançar posso,
não será muito haver também a glória
e o lauro da vitória,
que Virgílio procura e haver pretende,
pois o mesmo Virgílio a vós se rende.


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Prosseguindo a passada, a D. António de Noronha:




A quem darei queixumes namorados
do meu pastor queixoso namorado:
a branda voz, suspiros magoados,
a causa por que na alma é magoado?
De quem serão seus males consolados?
Quem lhe fará devido gasalhado?
Por partes mil lançando a fantasia,
busquei na terra estrela que guiasse.

Só vós, Senhor, fermoso e excelente,
especial em graças entre a gente
meus rudos versos; em cuja companhia
a santa piadade sempre andasse,
luzente e clara, como a luz do dia,
que o rude engenho meu me alumiasse;
em vossas perfeições, grão Senhor, vejo,
cumprido inda além o meu desejo.

A vós se dêem, a quem junto se há dado
brandura, mansidão, engenho e arte,
dum esprito divino acompanhado,
dos sobre-humanos um em toda a parte.
Em vós as graças todas se hão juntado;
de vós em outras partes se reparte;
sois claro raio, sois ardente chama,
glória e louvor do tempo, asas da fama.

Enquanto aparelho um novo esprito,
e voz de cisne tal que o mundo espante,
com que de vós, senhor, em alto grito
louvores mil em toda a parte cante,
ouvi o canto agreste em tronco escrito,
entre vacas e gado petulante;
que, quando tempo for, em melhor modo
por vós me ouvirá o mundo todo.

As vãs querelas, brandas e amorosas,
sejam de vós tratadas brandamente;
verdades d'alma pouco venturosas,
saídas com suspiro vivo e ardente,
que em vossas mãos se entregam valerosas,
para despois viverem entre a gente,
chorando sempre a antiga crueldade,
e os corações moverem a piadade.

Já declinava o sol contra o Oriente,
e o mais do dia já era passado,
quando o pastor, co grave mal que sente,
por dar alívio em parte a seu cuidado,
se queixa da pastora docemente,
cuidando de ninguém ser escutado.
Eu, que o ouvi düa árvore, escrevia
as mágoas que cantou; e assi dizia:

«Ou tu do monte Píndaso és nascida,
ou mármore te pariu, fermosa e dura:
que não pode ser seja concebida
dureza tal de humana criatura;
ou és quiçais em pedra convertida,
ou tens de natureza tal ventura;
porém não fez em ti boa impressão
tomar-te só de mármore o coração.

Já esta minha voz rouca e chorosa
a gente mais remota moveria,
e se tocasse a veia lacrimosa
os tigres em Hircânia amansaria.
Se não foras cruel, quando fermosa,
meu longo suspirar te abrandaria;
mas suspirar por ti e bem querer-te
que fazem, senão mais endurecer-te?

Se deixaras vencer a crueldade
de tua tão perfeita fermosura,
um pouco viras bem minha vontade,
e viras esta fé tão limpa e pura,
porventura que houveras piadade
e tivera eu quiçais melhor ventura.
Mas nunca achei melhor tua beleza,
senão com ver-se em ti tua dureza.

Já um peito abrandara que não sente
meu duro e grave mal, segundo é forte;
se decera ao inferno fero e ardente
movera a piadade a mesma morte.
Se üa gota de água brandamente
abranda um penedo duro e forte,
como lágrimas tantas não farão
um pequeno sinal num coração?

Na testa tenho üa fonte viva d' água,
que por meus olhos tristes se derrame;
no peito está de fogo na viva frágoa,
que tudo em si converte e tudo inflama;
Amor, ao derredor, por maior mágoa,
voando, mais acende a ardente chama.
E, se qués ver se ardentes são seus tiros,
olha se são ardentes meus suspiros.

Quando rumor algum grande se sente,
que se acende fogo em casa, ou torre,
de pura compaixão vai toda a gente
gritando: «Água ao fogo!» e cada um corre;
assi anda meu peito em chama ardente,
e coa água dos olhos se socorre;
que quem me abrasa outra água me defende,
porque com esta o fogo mais se acende.

Quando o sol sai lá no Oriente
o seu antigo curso começando,
fermoso, intenso, puro e refulgente,
o monte, campo, mar, tudo alegrando;
quando de nós se esconde no ponente,
e noutras terras sai, alumiando;
sempre, enquanto dá ao mundo giro,
por ti meus olhos choram e eu suspiro.

Caminha o dia todo o caminhante,
vem, acabado, a noite em que descansa;
trabalha na tormenta o mareante,
goza o dia sereno e de bonança;
recobra o ano fértil e abundante
na terra o lavrador, se nela cansa:
mas eu, de meu trabalho e mal tão forte,
tormento espero, enfim, e crua morte.

Co ouvir meu mal, as rosas matutinas,
de dó de mim, se cerram e emurchecem;
co meu suspiro ardente, as cores finas
perdem o cravo e lírio, e não florecem.
Coa roxa aurora, as pálidas boninas,
em vez de se alegrarem, se entristecem;
deixa seu canto Progne e Filomena;
que mais lhe dói que a sua a minha pena.

Responde o monte côncavo a meus ais,
e tu, como áspide, cerras-lhe o ouvido;
as árvores do campo, os animais,
mostram sentir meu mal sem ter sentido;
e a ti, as minhas dores desiguais
não movem esse peito endurecido.
Por mais e mais que chamo, não respondes,
e quanto mais te busco, mais te escondes.

Naquela parte adonde costumavas
apacentar teus olhos e teu gado,
ali, onde mil vezes me mostravas
ser eu de ti o pasto desejado,
mil vezes te busquei por ver se davas
ainda algum descanso a meu cuidado.
No campo em vão te busco, e busco o monte,
qual o ferido cervo busca a fonte.

Este lugar de ti desamparado,
com cujas sombras frias já folgaste,
agora triste e escuro e já tornado;
que todo o bem contigo nos levaste.
Tu eras nosso sol mais desejado;
não temos luz despois que nos deixaste.
Toma, meu claro sol! Vem já, meu bem!
Qual é o Josué que te detém?

Despois que deste vale te apartaste,
não pace o branco gado, com secura;
secou-se o campo dês que lhe negaste
des teus fermosos olhos a luz pura;
secou-se a fonte donde já te olhaste,
quando melhor que agora, áspera e dura.
Nega, sem ti, a terra dando gritos,
pasto às cabras e leite aos cabritos.

Sem ti, doce cruel minha inimiga,
a clara luz escura me parece;
este ribeiro, quando Amor me obriga,
com meu chorar por ti contino crece.
Não há fera que a fome não persiga,
nem o campo sem ti já não florece;
cegos estão meus olhos, já não vêem,
pois que não podem ver meu claro bem.

O campo, como de antes, não se esmalta
de bobinas azuis, brancas, vermelhas;
não chove ao pasto já, que há de água falta;
as mansas e pacíficas ovelhas
sem ti perecem e o Céu também lhes falta;
não acham flor as melífluas abelhas;
com lágrimas que manam dos meus olhos
produze a terra já ásperos abrolhos.

Torna pois já, pastora, a este prado,
e restituirás esta alegria;
alegrarás o monte, o campo, o gado,
alegrarás também a fonte fria.
Torna, vem já, meu sol tão desejado,
faze esta noite escura em claro dia;
e alegra já esta magoada vida,
toda em tua ausência consumida.

Vem, como quando o raio eminente
do nosso horizonte que, escondido,
deixa um certo temor à mortal gente,
que causa ver o orbe escurecido;
e quando torna a vir, claro e luzente,
alegra o mundo todo entristecido.
Assi é para mim tua luz pura
claro sol; e, ausente, noite escura.

Tu, esquecida já do bem passado e
e do primeiro amor que me mostraste,
teu coração de mim tens apartado,
e o lugar também desamparaste.
Não te quero eu a ti mais que a meu gado?
Não sou eu mesmo aquele que tu amaste?
Pois onde mereci tão grão desvio?
Ouve-me, pois me vês já morto e frio.

Bem vês que por Amor se move tudo,
e não há quem de Amor se veja isento:
o animal mais simples, baixo e rudo;
o de mais levantado pensamento;
até debaixo de água o peixe mudo,
lá tem d'Amor também seu movimento;
a ave, que no ar cantando voa
e também por outra ave se efeiçoa.

A música do leve passarinho,
que sem concerto algum solta e derrama,
saltando de raminho em raminho,
cantando com amor suspira e chama,
'té achar no amado e doce ninho
aquele a quem busca e a quem ama,
descansa do trabalho que tomara
tendo se seu descanso em quem achara.

A fera que é mais fera, e o leão
sempre acha outro leão, e outra fera,
em que possa empregar üa afeição
que lhe a conversação no peito gera;
também sabe sentir sua paixão,
também suspira, morre e desespera,
acena, salta, brada, ferve e geme
e, não temendo nada; Amor só teme.

O cervo que, escondido e emboscado,
temendo o cobiçoso caçador,
está na selva, monte, bosque ou prado,
ali onde está e vive, vive amor.
De amor e de temor acompanhado,
com justa causa, amor tem e temor:
temor de quem ali feri-lo vinha;
e amor a quem já ferido o tinha.

Se o animal insensível, que não sente,
também sente de amor a frecha dura,
porque te não abranda o fogo ardente,
que procede de tua fermosura?
Porque escondes a luz do sol a gente,
que nesses olhos trazes, bela e pura,
mais bela, mais suave e mais fermosa
que o lírio, o jasmim, o cravo, a rosa?

Pode ser, se me viras, que sentiras
ver desfazer um peito em triste pranto;
e bem pouco fizeras, se me viras,
já que eu só por te ver, suspiro tanto.
As mágoas e suspiros que me ouviras
te puderam mover a grande espanto,
a dor, a piadade, a sentimento;
e mais, que para mim é meu tormento.

Os pensamentos vãos, que o vento leve;
o suspirar em vão também ao vento;
o esperar a calma, a chuva, a neve,
e não te poder ver em só momento,
tormento é que somente a ti se deve.
E se pode inda haver maior tormento,
quem te viu e se vê de si ausente,
muito mais passará mais levemente.

Faz nossa a pedra dura em sua dureza
coa água que lhe toca brandamente;
abranda o ferro forte a fortaleza,
se lhe toca também o fogo ardente;
só em ti não conheço a natureza,
que a ser de pedra, ferro, ou de serpente,
já teu peito cruel fora desfeito
do fogo e das lágrimas que deito.

Quando a fermosa Aurora mostra a fronte,
alegra toda a terra, vendo o dia;
quando Febo aparece no horizonte,
manifesta também grande alegria;
contente como o gado ao pé do monte,
alegre vai beber a fonte fria.
Tudo contente está, alegre tudo;
eu só, só, pensativo, triste e mudo.

Se da alma e do corpo tens a palma,
e do corpo sem alma não tens dó,
há dó do corpo só, que está sem alma,
pois sem alma não vive o corpo só.
Na chama, no ardor, no fogo e calma,
na afeição, no querer eu sou um só;
não acharás vontade mais cativa;
nem outra como a tua tão esquiva.

Se te apartas por não ouvir meu rogo,
onde estiveres te hei-de importunar;
posto que vá por água, ferro ou fogo,
contigo em toda a parte me hás-de achar;
que a chama que me abrasa é de tal fogo
que, enquanto eu vivo for, há-de durar;
e o nó que me tem preso é de tal sorte
que não se há-de soltar em vida ou morte.

Neste meu coração sempre estarás
enquanto a alma estiver com ele unida;
meu spírito também possuirás,
despois que a alma do corpo for partida;
por mais e mais que faças, não farás
que não te ame nesta e na outra vida.
Impossível será que, eternamente,
estês de mim ausente, estando ausente.

Cá me acompanhará tua memória,
se o rio que se diz do esquecimento
da minha não borrar tão longa história,
tão grave mal, tão duro apartamento.
Até que eu te veja entrar na glória
viverei num contino sentimento;
inda então será – se isto ser possa -
servir esta alma minha lá a vossa».

Aqui, com grave dor, com triste acento,
deu o triste pastor fim a seu canto;
co rosto baixo, e alto o pensamento,
seus olhos começaram novo pranto;
mil vezes fez parar no ar o vento
e apiadou no Céu o coro santo;
as circunstantes selvas se abaixaram
de dó das tristes mágoas que escutaram.

Com üa mão na face, e encostado,
em sua dor tão enlevado estava
que, como em grave sono sepultado,
não viu o sol que já no mar entrava.
Berrando anda em roda o manso gado,
que o seguro curral já desejava;
nas covas as raposas, e em seus ninhos
se recolhem os simples passarinhos.

Já sobre um seco ramo estava posto
o mocho co funesto e triste pranto,
a cujo som o pastor ergueu o rosto
e viu a terra envolta em negro manto.
Quebrando então o fio a seu gosto,
mas não quebrando o fio a seu pranto,
para melhor cuidar em seu cuidado,
levou para os currais o manso gado.



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ALMENO e AGRÁRIO, pastores




Ao longo do sereno
Tejo, suave e brando,
num vale de altas árvores sombrio,
estava o triste Almeno
suspiros espalhando
ao vento e doces lágrimas ao rio.
No derradeiro fio
o tinha a esperança
que, com doces enganos,
lhe sustentara a vida tantos anos
nüa amorosa e branda confiança;
que, quem tanto queria,
parece que não erra, se confia.

A noite escura dava
repouso aos cansados
animais, esquecidos da verdura;
o vale triste estava
cuns ramos carregados
que a noite faziam mais escura.
Mostrava a espessura
um temeroso espanto;
as roucas rãs soavam
num charco de água negra, e ajudavam
do pássaro nocturno o triste canto;
o Tejo, com som grave,
corria mais medonho que suave.

Como toda a tristeza
no silêncio consiste,
parecia que o vale estava mudo;
e, com esta graveza,
estava tudo triste.
Porém o triste Almeno mais que tudo;
tomando por escudo
de sua doce pena,
para poder sofrê-la,
estar imaginando a causa dela;
que, em tanto mal, e cura bem pequena.
Maior é o tormento
que toma por alívio um pensamento.

Ao rio se queixava,
com lágrimas em fio,
com que creciam as ondas outro tanto.
Seu doce canto dava
tristes águas ao rio,
e o rio triste som ao doce canto.
Co cansado pranto,
que as águas refreava,
responde o vale umbroso.
Da mansa voz o acento temeroso
na outra parte do rio retumbava,
quando, da fantasia,
o silêncio rompendo, assi dizia:

«Corre suave e brando
com tuas claras águas,
saídas de meus olhos, doce Tejo,
fé de meus males dando,
para que minhas mágoas
sejam castigo igual de meu desejo;
que pois em mim não vejo
remédio, nem o espero,
e a morte se despreza
de me matar, deixando-me a crueza
daquela por quem meu tormento quero,
saiba o mundo meu dano,
por que se desengane em meu engano.

Já que minha ventura
- ou quem me a causa ordena -
quer por paga da dor tome sofrê-la,
será mais certa cura
para tamanha pena
desesperar de haver já cura nela.
Porque, se minha estrela
causou tal esquivança,
consinta meu cuidado
que me farte de ser desesperado,
para desenganar minha esperança,
que para isso naci:
para viver na morte, e ela em mi.

Não cesse meu tormento
de fazer seu ofício,
que aqui tem üa alma ao jugo atada;
nem falte o sofrimento,
porque parece vício
para tão doce mal faltar-me nada.
Ó Ninfa delicada,
honra da Natureza!
Como pode isto ser;
que de tão peregrino parecer
pudesse proceder tanta crueza?
Não vem de nenhum jeito
de causa divinal contrário efeito.

Pois como pena tanta
é contra a causa dela?
Fora é de natural minha tristeza.
Mas a mim que me espanta?
Não basta, ó Ninfa bela,
que podes perverter a Natureza?
Não é a gentileza
de teu gesto celeste
fora do natural?
Não pode a Natureza fazer tal;
tu mesma, bela Ninfa, te fizeste.
Porém porque tomaste
tão dura condição, se te formaste?

Por ti, o alegre prado
me é pesado e duro;
abrolhos me parecem suas flores.
Por ti, do manso gado,
como de mim, não curo,
por não fazer ofensa a teus amores.
Os jogos dos pastores,
as lutas entre a rama,
nada me faz contente;
e sou já do que fui tão diferente
que, quando por meu nome alguém me chama,
pasmo, quando conheço
que inda comigo mesmo me pareço.

O gado que apacento
são n'alma meus cuidados;
e as flores, que no campo sempre vejo,
são no meu pensamento
teus olhos debuxados,
com que estou enganando meu desejo.
As águas frias do Tejo,
de doces, se tornaram
ardentes e salgadas,
despois que minhas lágrimas cansadas
com seu puro licor se misturaram,
como quando mistura
Hípanis co Exampeu sua água pura.

Se aí no mundo houvesse
ouvires-me algüa hora,
assentada na praia deste rio,
e de arte te dissesse
o mal que passo agora,
que pudesse mover-te o peito frio...
Oh, quanto desvario
que estou afigurando!
Já agora meu tormento
não pode pedir mais ao pensamento
que este fantasiar que, imaginando,
a vida me reserva.
Querer mais de meu mal será soberba.

Já a esmaltada Aurora
descobre o negro manto
da sombra, que as montanhas encobria.
Descansa, frauta, agora,
que meu cansado canto
não merece que veja o claro dia.
Não canse a fantasia
de estar em si pintando
o gesto delicado,
enquanto traz ao pasto o manso gado
este pastor que lá só vem falando;
calar-me-ei somente,
que meu mal nem ouvir-se me consente.»

AGRÁRIO pastor

Fermosa manha clara e deleitosa
que, como fresca rosa na verdura,
te mostras bela e pura, marchetando
as Ninfas, espalhando seus cabelos
nos verdes montes belos; tu só fazes,
quando a sombra desfazes triste e escura,
fermosa a espessura e fresca a fonte,
fermoso o alto monte e o rochedo,
fermoso o arvoredo e deleitoso;
enfim, tudo fermoso. Co teu rosto,
de ouro e rosas composto e claridade,
trazes a saudade ao pensamento,
mostrando num momento o roxo dia,
coa doce harmonia nos cantares
dos pássaros a pares que, voando,
seu pasto andam buscando nos caminhos,
para os amados ninhos, que mantêm.
Ó grande e sumo bem de Natureza!
Estranha subtileza de pintora,
que matiza, nüa hora, de mil cores
o céu, a terra, as flores, monte e prado!
Ó tempo já passado, quão presente
te vejo abertamente na vontade!
Quamanha saudade tenho agora
do tempo que a pastora minha amava,
e de quanto prezava minha dor!
Então tinha o amor maior poder;
então num só querer nos igualava,
porque, quando um chamava a quem queria,
o eco respondia da afeição
no brando coração da doce imiga.
Nesta amorosa liga concertavam
os tempos, que passavam com prazeres.
Mostrava a flava Ceres polas eiras
das brancas sementeiras ledo fruto,
pagando seu tributo aos lavradores;
e enchia aos pastores todo o prado
Pales, do manso gado guardadora.
Zéfiro e a fresca Flora passeando,
os campos esmaltando de boninas;
nas águas cristalinas triste estava
Narciso, que inda olhava n'água pura
sua linda figura delicada;
mas Eco, namorada de seu gesto,
com pranto manifesto, seu tormento
no derradeiro acento lamentava.
Ali também se achava o sangue tinto
do purpúreo Jacinto, e o destroço
de Adónis, lindo moço, morte feia,
da bela Citereia tão chorada;
toda a terra esmaltada destas rosas!
Ali as Ninfas fermosas pelos prados,
os Faunos namorados após elas,
mostrando-lhe capelas de mil cores,
que faziam das flores que colhiam;
as Ninfas lhe fugiam, amedrontadas,
as fraldas levantadas, pelos montes.
A fresca água das fontes espalhar-se,
Vertuno transformar-se ali se via;
Pomona, que trazia os doces fruitos;
ali pastores muitos, que tangiam
as gaitas que traziam e, cantando,
estavam enganando suas penas,
tomando das Sirenas o exercício.
Ouvia-se Salício lamentar-se,
da mudança queixar-se crua e feia
da dura Galateia, tão fermosa;
e da morte envejosa Nemoroso
ao monte cavernoso se querela,
que sua Elisa bela, em pouco espaço,
cortara inda em agraço a dura sorte.
Ó imatura morte, que a ninguém,
de quantos vida têm, nunca perdoas!
Mas tu, Tempo, que voas apressado,
um deleitoso estado quão asinha
nesta vida mesquinha transfiguras
em mil desaventuras, e a lembrança
nos deixas por herança do que levas!
Assi que se nos cevas com prazeres,
á para nos comeres no milhor.
Cada vez em pior te vás mudando;
quanto vens inventando, que hoje aprovas,
logo amanhã reprovas com instância!
Ó estranha inconstância e tão profana
de toda a cousa humana inferior,
a quem o cego error sempre anda anexo!
Mas eu de que me queixo? ou que digo?
Vive o tempo comigo, ou ele tem
culpa no mal que vem da cega gente?
Porventura ele sente ou ele entende
aquilo que defende o Ser Divino?
Ele usa de contino seu ofício,
que já por exercício lhe é devido:
dá-nos fruto colhido na sazão
de fermoso Verão; e, no Inverno,
com seu humor eterno congelado,
do vapor levantado coa quentura
do sol, a terra dura lhe dá alento,
para que o mantimento produzindo
estê sempre cumprindo seu costume;
assi que não consume de si nada,
nem muda da passada vida um dedo;
antes sempre está quedo no devido,
porque este é seu partido e sua usança;
e nele está mudança e mais firmeza.
Mas quem a lei despreza e pouco estima
de Quem de lá de cima está movendo
o Céu sublime e horrendo, o mundo puro,
este muda o seguro e firme estado
do tempo, não mudado da verdade.
Não foi naquela idade de ouro claro
o firme tempo caro e excelente?
Vivia então a gente moderada;
sem ser a terra arada, dava pão;
sem ser cavado, o chão as frutas dava;
nem chuva desejava, nem quentura;
supria então Natura o necessário.
Pois quem foi tão contrário a esta vida?
Saturno que, perdida a luz serena,
causou que, em dura pena desterrado,
fosse do Céu deitado, onde vivia,
porque os filhos comia, que gerava.
Por isso se mudava o tempo igual
em mais baixo metal e, assi decendo,
nos veio assi trazendo a este estado.
Mas eu, desatinado, adonde vou?
Para onde me levou a fantasia,
que estou gastando o dia em vãs palavras?
Quero ora minhas cabras ir levando
ao manso Tejo brando, porque achar
no mundo que emendar não e de agora;
basta que a vida fora dele tenho.
Com meu gado me avenho, e estou contente.
Porém, se me não mente a vista, eu vejo
nesta praia do Tejo estar deitado
Almeno que, enlevado em pensamentos,
as horas e momentos vai gastando;
para ele vou chegando, só por ver
se poderei fazer que o mal, que sente,
um pouco se lhe ausente da memória.

ALMENO, sonhando

Ó doce pensamento, ó doce glória!
São estes porventura os olhos belos
que tem de meus sentidos a vitória?

São estas, Ninfa, as tranças dos cabelos
que fazem de seu preço o ouro alheio,
e a mim de mim mesmo, só com vê-los?

É esta a alva coluna, o lindo esteio,
sustentador das obras mais que humanas,
que eu nos braços tenho, e não no creio?

Ah! falso pensamento, que me enganas!
Fazes-me pôr a boca onde não devo,
com palavras de doudo, e quase insanas!

Como alçar-te tão alto assi me atrevo?
Tais asas dou-tas eu, ou tu mas dás?
Levas-me tu a mim, ou eu te levo?

Não poderei eu ir onde tu vás?
Porém, pois ir não posso onde tu fores,
quando fores, não tornes donde estás.

Ó que triste sucesso foi de amores
o que a este pastor aconteceu,
segundo ouvi contar a outros pastores!

Que tanto por seu dano se perdeu
que o longo imaginar em seu tormento
em desatino Amor lho converteu.

Ó furioso vigor do pensamento,
que pode noutra cousa estar mudando
a forma, a vida, o siso, o entendimento!

Está-se um triste amante transformando
na vontade daquela que tanto ama,
de si sua própria essência transportando;

e nenhüa outra cousa mais desama
que a si, se vê que em si há algum sentido
que deste fogo insano não se inflama.

Almeno, que aqui está tão influído
no fantástico sonho, que o cuidado
lhe traz sempre ante os olhos esculpido,

está-se-lhe pintando, de enlevado,
que tem já da fantástica pastora
o peito diamantino mitigado.

Em este doce engano estava agora
falando como em sonhos; mas achando
ser vento o que sonhava, grita e chora.

Destarte andavam sonhos enganando
o pastor sonolento, que a Diana
andava entre as ovelhas celebrando;

destarte a nuvem falsa em forma humana
o vão pai dos Centauros enganava,
que Amor, quando contenta, sempre engana;

como a este que consigo só falava
cuidando que falava, de enlevado,
com quem lhe o pensamento figurava.

Não pode quem quer muito ser culpado
em nenhum erro, quando vem a ser
o amor em doudice transformado.

Não é amor, se não vier
com doudices, desonras, dissenções,
pazes, guerras, prazer e desprazer,

perigos, línguas más, murmurações,
ciúmes, arruídos, competências,
temores, mortes, nojos, perdições.

Estas são verdadeiras experiências
de quem põe o desejo onde não deve,
de quem engana alheias inocências.

Mas isto tem Amor, que não se escreve
senão onde é ilícito e custoso;
e onde é mor o perigo mais se atreve.

Passava alegre tempo, deleitoso,
o troiano pastor, enquanto andava
sem ter alto desejo e perigoso.

Seus furiosos touros coroava,
e nos álamos altos escrevia
teu nome, Enone, quando a ti só amava.

Creciam os altos álamos, crecia
o amor que te tinha; sem perigo
e sem temor contente te servia.

Mas despois que deixou entrar consigo
ilícito desejo e pensamento,
de sua quietação tão inimigo,

a toda a pátria pôs em detrimento,
com morte de parentes e de irmãos,
com cru incêndio e grande perdimento.

Nisto fenecem pensamentos vãos,
tristes serviços mal galardoados,
cuja glória se passa dantre as mãos.

Lágrimas e suspiros arrancados
d'alma, todos se pagam com enganos,
e oxalá fossem muitos enganados.

Andam com seu tormento tão ufanos,
gastando na doçura de um cuidado
após üa esperança, tantos anos!

E tal há tão perdido namorado,
tão contente co pouco, que daria
por um só mover d'olhos, todo o gado.

E em todo o povoado e companhia,
sendo ausentes de si, estão presentes
com quem lhe pinta sempre a fantasia.

Cum certo não sei quê andam contentes,
e logo um nada os torna ao contrário,
de todo o ser humano diferentes.

Ó tirânico Amor, ó caso vário,
que obrigas um querer que sempre seja
de si contino e áspero adversário!

E outr' hora nenhüa alegre esteja,
senão quando do seu despojo amado
sua imiga estar triunfando veja!

Quero falar com este, que enredado
nesta cegueira está sem nenhum tento.
Acorda já, pastor desacordado!

ALMENO

Oh! porque me tiraste um pensamento
que agora estava os olhos debuxando,
de quem aos meus foi doce mantimento?

AGRÁRIO

Nessa imaginação estás gastando
o tempo e a vida, Almeno? Oh, perda grande!
Não vês quão mal os dias vais passando?

ALMENO

Fermosos olhos, ande a gente e ande,
que nunca vos ireis desta alma minha,
por mais que o tempo corra e a morte o mande.

AGRÁRIO

Quem poderá cuidar que tão asinha
se perca o curso assi do siso humano,
que corre por direita e justa linha?

Que sejas tão perdido por teu dano,
Almeno irmão, não é, por certo, aviso,
mas mui grande doudice e grande engano.

ALMENO

Ó Agrário, que vendo o doce riso
e o rosto tão fermoso como esquivo,
o menos que perdi foi todo o siso.

E não entendo, dês que fui cativo,
outra cousa de mim, senão que mouro;
nem isto entendo bem, pois inda vivo.

À sombra deste umbroso e verde louro
passo a vida, ora em lágrimas cansadas,
ora em louvores dos cabelos de ouro.

Se perguntares porque são choradas,
ou porque tanta pena me consume,
revolvendo memórias magoadas:

dês que perdi da vista o claro lume,
e perdi a esperança e a causa dela,
não choro por razão, mas por costume.

Jamais soube co Fado ter cautela;
nem nunca houve em mi contentamento
que não fosse trocado em dura estrela.

Que bem livre vivia e bem isento,
sem nunca ser ao jugo sometido
de nenhum amoroso pensamento!

Lembra-me, Agrário amigo, que o sentido
tão fora de amor tinha que me ria
de quem por ele via andar perdido.

De várias cores sempre me vestia,
de boninas a fronte coroava;
nenhum pastor, cantando, me vencia.

A barba então nas faces me apontava;
na luta, no correr e em qualquer manha
sempre a palma antre todos alcançava.

Da minha idade tenra, em tudo estranha,
vendo, como acontece, afeiçoadas
muitas Ninfas do rio e da montanha,

com palavras mimosas e forjadas
da solta liberdade e livre peito,
as trazia contentes e enganadas.

Mas não querendo Amor que, deste jeito,
dos corações andasse triunfando
em quem ele criou tão pouco efeito,

pouco e pouco me foi de mim levando
dissimuladamente as mãos de quem
toda esta injúria agora esta vingando.

AGRÁRIO

Deste teu caso, Almeno, eu sei mui bem
o princípio e o fim, que Nemoroso
contado tudo isso, e mais, me tem.

Mas quero-te dizer: se o enganoso
Amor é costumado a desconcertos
que nunca, amando, fez pastor ditoso,

já que nele estes casos são tão certos,
porque os estranhas tanto que, de mágoa,
te choram as montanhas e os desertos?

Vejo-te estar gastando em viva frágoa
e, juntamente, em lágrimas vencendo
a grã Sicília em fogo, o Nilo em água.

Vejo que as tuas cabras não querendo
gostar as verdes ervas, se emagrecem,
as tetas aos cabritos encolhendo.

Os campos que co tempo reverdecem
os olhos alegrando, descontentes
em te vendo, parece que entristecem.

Todos os teus amigos e parentes,
que lá da serra vêm por consolar-te,
sentindo n' alma a pena que tu sentes,

se querem de teus males apartar-te.
Deixando a casa e gado vais fugindo,
como cervo ferido, a outra parte.

Não vês que Amor, as vidas consumindo,
vive só de vontades enlevadas
no falso parecer dum gesto lindo?

Nem as ervas das águas desejadas
se fartam; nem de flores as abelhas;
nem este amor de lágrimas cansadas.

Quantas vezes, perdido entre as ovelhas,
chorou Febo de Dafne as esquivanças,
regando as flores brancas e vermelhas?

Quantas vezes as ásperas mudanças
o namorado Galo tem chorado
de quem o tinha envolto em esperanças?

Estava o triste amante recostado,
chorando ao pé dum freixo o triste caso
que o falso Amor lhe tinha destinado;

por ele o sacro Pindo e o grão Parnaso
na fonte de Aganipe distilando,
o faziam de lágrimas um vaso.

Vinha o intenso Apolo ali culpando
a sobeja tristeza perigosa
com ásperas palavras reprovando:

«Galo, porque endoudeces, que a fermosa
Ninfa que tanto amaste, descobrindo
por falsa a fé que dava e mentirosa,

pelas alpinas neves vai seguindo
outro amor, outro bem, outro desejo,
como inimiga, enfim, de ti fugindo?»

Mas o mísero amante, que o sobejo
mal empregado amor lhe defendia
ter de tamanha fé vergonha ou pejo,

da falsífica Ninfa não sentia
senão que o frio do gelado Reno
os delicados pés lhe ofenderia.

Ora se tu vês claro, amigo Almeno,
que de Amor os desastres são de sorte
que para matar basta o mais pequeno,

porque não pões um freio a mal tão forte
que em estado te põe que, sendo vivo,
já não se entende em ti vida nem morte?

ALMENO

Agrário, se do gesto fugitivo
por caso da fortuna desastrado,
algüa hora deixar de ser cativo;

ou sendo para as Ursas degradado,
aonde Bóreas tem o Oceano
cos frios Hiperbóreos congelado;

ou onde o filho de Climene insano,
mudando a cor das gentes totalmente,
as terras apartou do trato humano;

ou, se por qualquer outro acidente,
deixar este cuidado tão ditoso,
por quem sou de ser triste tão contente:

este rio, que passa deleitoso,
tornando por detrás, irá negando
a natureza o curso pressuroso;

as feras pelo mar irão buscando
seu pasto e andar-se-ão pola espessura
das ervas os delfins apacentando.

Ora, se tu vês n'alma quão segura
tenho esta fé e amor, para que insistes
nesse conselho e prática tão dura?

Se de tua perfia não desistes,
vai repastar teu gado a outra parte;
que é dura a companhia para os tristes.

Üa só cousa quero encomendar-te,
para repouso algum de meu engano,
antes que o tempo, enfim, de mim te aparte:

que, se esta fera que anda em trajo humano
vires pela montanha andar vagando,
de meu despojo rica e de meu dano,

com os espritos vivos inflamando
o ar, o monte e a serra, que consigo
continuamente leva namorando;

se queres contentar-me como amigo,
passando, lhe dirás: «Gentil pastora,
não há no mundo vício sem castigo.

Tornada em duro mármore não fora
a fera Anaxarete, se amoroso
mostrara o rosto angélico algüa hora.

Foi bem justo o castigo rigoroso;
porém quem te ama, Ninfa, não queria
noda tão feia em gesto tão fermoso».

AGRÁRIO

Tudo farei, Almeno, e mais faria
por te ver algüa hora descansado,
se se acabam trabalhos algum dia.

Mas bem vês como Febo, já empinado,
me manda que da calma iníqua e crua
recolha em algum vale o manso gado.

Tu, nessa fantasia falsa tua,
para engano maior de teu perigo,
não queres companhia senão a sua.

Vou-me daqui e fique Deus contigo;
e ficarás melhor acompanhado.

ALMENO

Ele contigo vá, como comigo
me fica acompanhando meu cuidado.



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De ALMENO e BELISA, continuando com a passada:




Passado já algum tempo que os amores
de Almeno, por meu mal, eram passados,
porque nunca Amor cumpre o que promete,
e antre verdes ulmeiros apartados,
regando pelo campo as brancas flores,
em lágrimas cansadas se derrete;
quando a linda pastora, que compete
co monte em aspereza,
co prado em gentileza,
por quem o triste Almeno endoudecia,
pela praia do Tejo discorria
a lavar a beatilha e o trançado;
já o sol consentia
que saísse da sombra o manso gado.

E acordado já do pensamento
que tão desacordado o sempre teve,
viu por acerto o bem que incerto tinha.
E, porque onde Amor a mais se atreve,
ali mais enfraquece o entendimento,
não lhe soube dizer o que convinha.
Como homem que à aprazada briga vinha,
a quem de fora engana
a confiança humana,
e despois, vendo o rosto a quem resiste,
treme, teme o perigo, e não insiste,
já se arrepende, a audácia lhe falece:
destarte o pastor triste
ousa, arreceia, esforça e enfraquece.

E tendo assi atónito o sentido,
cometeu com furor desatinado,
e tirou da fraqueza o coração.
Cometimento faz desesperado,
que üa só salvação tem um perdido:
perder toda a esperança à salvação.
As mágoas, que passaram, se dirão;
mas as que ela dizia,
lembrando-lhe que via
as águas murmurar do Tejo amenas,
remeto a vós, ó Tágides Camenas,
que, de mágoa, não posso dizer tanto,
porque em tamanhas penas
me cansa a pena e a dor me impede o canto.

BELISA pastora

Que alegre campo e praia deleitosa!
E quão saudosa faz esta espessura
a fermosura angélica e serena
da tarde amena! E quão saudosamente
a sesta ardente abranda, suspirando,
de quando em quando, o vento alegre e frio!
No fundo rio os mudos peixes saltam;
no ar se esmaltam os céus de ouro e verde
e Febo perde a força da quentura.
Pola espessura levam passeando
o gado brando, ao som das sanfoninas,
pisando as finas e fermosas flores,
os guardadores que, cantando, o gesto
fermoso e honesto das pastoras que amam,
ao ar derramam mil suspiros vãos.
Um louva as mãos, e outro os olhos belos,
outro os cabelos de ouro, em som suave;
a amorosa ave leva o contraponto.
Mas oh! que conto, e que saudosa história
que na memória aqui se me oferece!
Se não me esquece, já neste lugar
ouvi soar nos vales algum dia,
e respondia o Eco o nome em vão
num coração, Belisa retumbando.
Estou cuidando como o tempo passa
e quão escassa é toda alegre vida;
e quão comprida, quando é triste e dura.
Nesta espessura longo tempo amei;
se me enganei com quem do peito amava,
não me pesava de ser enganada.
Fui salteada, enfim, de um pensamento,
que um movimento tinha casto e são.
Conversação foi fonte deste engano
que, por meu dano, entrou com falsa cor.
Porque o amor, na Ninfa que é segura,
entra em figura de vontade honesta.
Mas que me presta, agora, dar desculpa?
Se aí houve culpa, pô-la o firme Amor
só num pastor, que nunca o Sol nem Lüa
ou serra algüa, desde o Ibero ao Indo,
viram outro tão lindo e tão manhoso.
Neste amoroso estado e fé que tinha
cá n'alma minha tão secretamente
vivi contente, amando e encobrindo.
Ele, fingindo mentirosos danos,
que são enganos que não custam nada,
tendo alcançada já no entendimento
a fé e intento meu só nele posto
- que logo o rosto mostra os corações,
e as afeições cos olhos se praticam,
que mais publicam muito que palavras –,
com suas cabras sempre à parte vinha
onde eu mantinha os olhos e o desejo.
Tu, manso Tejo, e tu, florido prado,
do mais passado, enfim, que aqui não digo,
sereis, me obrigo, testemunho certo,
que descoberto vos foi tudo e claro.
Ó tempo avaro, ó sorte nunca igual,
camanho mal quereis à humana gente!
Porque um contente estado assi trocastes?
Vós me tirastes do meu peito isento
o pensamento honesto e repousado,
já dedicado ao coro de Diana;
vós nüa ufana vida me pusestes,
e ali quisestes que gozasse o dano
do doce engano que se chama amor,
com cujo error passava o tempo ledo.
E vós tão cedo me tirais um bem
que Amor já tem impresso n'alma minha
– despois que a tinha envolta em esperanças –
e com lembranças tristes me deixais?
Mal me pagais a fé que sempre tive.
Mas assi vive quem sem dita nace.
Mas já que a face alegre o Sol esconde
e não responde alguém a tantas mágoas,
senão as águas que dos olhos saem,
as sombras caem, e vão-se as alimárias,
das ervas várias fartas, seu caminho;
buscando o ninho os pássaros sem dono
já pelo sono esquecem o comer;
quero esquecer também tão doce história,
pois é memória que traz mor cuidado.
Isto é passado e, se me deu paixão,
os dias vão gastando o mal e o bem,
e não convém querer-me magoar
do que emendar não posso já com mágoas.
Nas claras águas deste rio brando,
que vão regando o campo matizado,
este trançado lavar quero enfim;
que já de mim m'esqueço coa lembrança
desta mudança, que esquecer não sei.
Inda que eu mudarei a opinião:
que, enfim, homens são, a que o esquecimento
depressa faz mudar o pensamento.

ALMENO

Se a vista não me engana a fantasia
- como já me enganou mil vezes, quando
minha ventura enganos me sofria -,

parece-me que vejo estar lavando
üa Ninfa um véu no claro Tejo,
que se me está Belisa afigurando.

Não pode ser verdade isto que vejo;
que facilmente aos olhos se afigura
aquilo que se pinta no desejo.

Oh, acontecimento que a ventura
me dá para mor dano! Esta é, certo,
que não é doutrem tanta fermosura.

Se poderei falar-lhe mais de perto?
Mas fugir-me-á; não pode ser, que o rio
para acolá não tem caminho aberto.

Oh, temor grande! Oh, grande desvario,
que a voz me impide, e a língua negligente
destarte está tornando o peito frio!

De quanto me sobeja estando ausente,
que para lhe falar sempre imagino,
tudo me falta agora em estar presente.

Oh, aspeito suave e peregrino!
Pois como tão asinha assi se esquece
üa fé verdadeira, um amor fino?

BELISA

Ó altas semideias! Pois padece
em vosso rio a honra delicada
de quem tamanha força não merece?

Ou seja por vós, Ninfa, reservada,
ou nalgüa árvore alta ou pedra dura
seja por vós asinha transformada.

ALMENO

Ah! Ninfa! Não te mudes a figura;
nem vós, deusas, queirais que eu seja parte
de se mudar tamanha fermosura.

Porque a quem falta a voz para falar-te,
e a quem falece a língua e ousadia
também faltarão mãos para tocar-te.

BELISA

Que me queres, Almeno, ou que porfia
foi a tua, tão áspera, comigo?
Minha vontade não to merecia.

Se com o amor o fazes, eu te digo
que amor que tanto mal me faz em tudo
não pode ser amor, mas inimigo.

Não és tu de saber tão falto e rudo
que tão sem siso amasses como amaste.

ALMENO

Onde viste tu, Ninfa, amor sesudo?

Porque te não alembra que folgaste
com meus tormentos tristes, e algu' hora
com teus fermosos olhos me olhaste?

Como te esquece já, gentil pastora,
que folgavas de ler nos freixos verdes
o que de ti escrevia cada hora?

Como tão presto assi a memória perdes
do amor que mostravas, que eu não digo,
se vós, altos montes, não disserdes?

Porque te não alembras do perigo
a que, só por me ouvir, te aventuravas,
buscando horas de sesta, horas de abrigo?

Coa maçã de discórdia me tiravas;
que Vénus que a ganhou por fermosura,
tu, como mais fermosa, lha ganhavas.

E, escondendo-te entre a espessura,
ias fugindo como vergonhosa
da namorada e doce travessura.

Não era esta a maçã de ouro fermosa
com que encoberta assi de astúcia tanta
Cidipe se enganou, de cobiçosa;

nem a que curso teve de Atalanta;
mas era aquela com que Galateia
o pastor cativou, como ele canta.

Se más tenções puseram nódoa feia
em nosso firme amor, de enveja pura,
porque pagarei eu a culpa alheia?

Quem desta fé, quem deste amor não cura,
nunca teve sujeito o coração;
que o firme amor coa alma eterna dura.

BELISA

Mal conheces, Almeno, üa afeição;
que, se eu desse amor tenho esquecimento,
meus olhos magoados to dirão.

Mas teu sobejo e livre atrevimento
e teu pouco segredo, descuidando,
foi causa deste longo apartamento.

Vês as ninfas do Tejo que, mudando
me vão já, pouco a pouco, o claro gesto,
noutra forma mais dura traspassando?

Um só segredo meu te manifesto:
que te quis muito, enquanto Deus queria,
mas de pura afeição e amor honesto.

E pois teu mau cuidado e ousadia
causou tão dura e áspera mudança,
folgo que muitas vezes to dizia.

Fica-te embora, e perde a confiança
que mais me não verás, como já viste,
que assi se desengana üa esperança.

ALMENO

Ó duro apartamento! Ó vida triste!
Ó nunca acontecida desventura!
Pois como, Ninfa, assi te despediste?

Assi se há-de ir tornando sem ter cura
nessa silvestre e áspera rudeza
tão branda e excelente fermosura?

Tua nunca entendida gentileza
e teus membros assi se transformaram,
negando-se-lhe a própria natureza?

Destarte teus cabelos se tornaram,
deixando já seu preço ao ouro fino,
em folhas, que a cor têm do que negaram?

Se este consentimento foi divino,
consinta-me também que perca a vida,
antes que a mais me obrigue o desatino.

Que se a Fortuna dura embravecida
tanto em meu tormento se desmede,
não viva mais üa alma tão perdida.

E vós, feras do monte, pois vos pede
minha pena o remédio derradeiro,
fartai já de meu sangue vossa sede.

E vós, pastores rudos deste outeiro,
por que a todos, enfim, se manifeste
que cousa é amor puro e verdadeiro,

ao pé deste funéreo acipreste
me fareis um sepulcro sem arreio,
de boninas que o prado ameno veste.

Com desusadas músicas de Orfeio
que me vós cantareis; e, desta sorte,
não haverei enveja ao Mausoleio.

E por que minha cinza se conforte,
em vossos metros doces e suaves
as exéquias fareis de minha morte.

Ali responderão as altas aves,
não módulas no canto, nem lascivas,
mas de dor ora roucas, ora graves.

Não correrão as águas fugitivas
alegres por aqui, mas saudosas,
que pareçam que vêm dos olhos vivas.

Nacerão pelas praias deleitosas
os ásperos abrolhos em lugar
dos roxos lírios, das pudicas rosas.

Não trarão as ovelhas a pastar
d' arredor do sepulcro os guardadores,
que não comerão nada, de pesar.

Virão os Faunos, guarda dos pastores,
se morri por amores perguntando.
Responderão os ecos: «Por amores».

E para os que aqui forem caminhando,
um epitáfio triste se lerá
que esteja minha morte declarando,

e no tronco düa árvore estará
nüa ruda cortiça pendurado;
escrito cüa fouce, assi dirá:

«Almeno fui, pastor de manso gado,
enquanto consentiu minha ventura
de Ninfas e pastoras celebrado.

Se algüa hora, por dita, na espessura
se perder o amor e a afeição,
tirem a pedra desta sepultura,
e em figura de cinza os acharão.»


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Intitulada dos Faunos, dirigida a D. António de Noronha:




As doces cantilenas que cantavam
os semicapros deuses, amadores
das Napeias, que os montes habitavam,

cantando escreverei; que, se os amores
aos silvestres deuses maltrataram,
já ficam desculpados os pastores.

Vós, Senhor Dom António, aonde acharam
o claro Apolo e Marte um ser perfeito,
em que suas altas mentes assinaram,

se meu engenho é rudo e imperfeito,
bem sabe onde se salva, pois pretende
levantar coa causa o baixo efeito.

Em vós minha fraqueza se defende;
em vós instila a fonte de Pegaso
o que meu canto pelo mundo estende.

Vedes que altas Musas do Parnaso
cantando vos estão na doce lira,
tomando-me das mãos tão alto caso.

Vedes o louro Apolo, que me tira
de louvar vossa estirpe, e escurece
o que em vosso louvor meu canto aspira:

ou por me haver enveja me falece,
ou por não ver soar na frauta ruda
o que a sonora cítara merece.

Pois sei-vos, Senhor, dizer que a língua muda,
enquanto Progne triste o sentimento
da corrompida irmã co pranto ajuda;

e enquanto Galateia ao manso vento
solta os cabelos louros da cabeça;
e Títiro nas sombras faz assento;

e enquanto flor aos campos não faleça
– se não recebeis isto por afronta –;
fará que o Douro e o Ganges vos conheça.

E já que a língua nisto fica pronta,
consenti que a minha Égloga se conte
enquanto Apolo as vossas cousas conta.

No cume do Parnaso, duro monte
de silvestre arvoredo rodeado,
nace üa cristalina e clara fonte,

donde um manso ribeiro derivado,
por cima de alvas pedras, mansamente
vai correndo, suave e sossegado.

O murmurar das ondas excelente
os pássaros excita que, cantando,
fazem o monte verde mais contente.

Tão claras vão as águas caminhando
que, no fundo, as pedrinhas delicadas
se pode, üa e üa, estar contando.

Não se verão ao redor pisadas
de fera ou de pastor que ali chegasse,
porque do espesso monte são vedadas.

Erva se não verá que ali criasse
o monte ameno, triste ou venenosa,
senão que lá no centro as igualasse:

o roxo lírio a par da branca rosa,
a cecém branca e a flor que dos amantes
a cor tem magoada e saudosa;

ali se vêem os mirtos circunstantes
que a cristalina Vénus encobriram
da companha dos Faunos petulantes.

Hortelã, manjarona, ali respiram,
onde nem frio inverno ou quente estio
as murcharam jamais, ou secas viram.

Destarte vai seguindo o curso o rio,
o monte inabitado, e o deserto,
sempre com verdes árvores sombrio.

Aqui üa linda Ninfa por acerto
perdida da fragueira companhia,
a quem este alto monte era encoberto,

cansada já da caça vindo um dia,
quis descansar à sombra da floresta,
e tirar nas mãos alvas da água fria.

E vendo a novidade manifesta
do sítio, e como as árvores co vento
as calmas defendiam da alta sesta;

das aves o lascivo movimento,
que, em seus módulos versos ocupadas,
as asas dão ao doce pensamento;

tendo notado tudo, já passadas
as horas da grã sesta se tornou
a buscar as irmãs, no centro, amadas.

Despois que largamente lhes cantou
do não visto lugar que perto estava
que tanto por extremo a namorou,

que ao outro dia fossem lhes rogava
a lavar-se naquela fonte amena,
que tão fermosas águas distilava.

Já tinha dado um giro a luz serena
do grão pastor de Admeto, e já nacia
aos ditosos amantes nova pena,

quando as fermosas Ninfas à porfia
para o lugar do monte caminhavam,
rompendo a manhã roxa, alegre e fria.

De üa os cabelos louros se espalhavam
pelo fermoso colo, sem concerto,
com dous mil nós suaves se enlaçavam;

outra, levando o colo descoberto,
por mais despejo, em tranças os atara,
havendo por pesado o desconcerto.

Dinamene e Efire, a quem topara
nuas Febo num rio, e encobriram
seus delicados corpos n'água clara;

Sirinx e Nise que das mãos fugiram
do Tegeu Pã, Amanta e Elisa,
destras nos arcos, mais que quantas tiram;

a linda Daliana, com Belisa,
ambas vindas do Tejo, que como elas
nenhüa tão fermosa as ervas pisa.

Todas estas angélicas donzelas
pelo viçoso monte alegres iam,
quais no céu largo as nítidas estrelas.

Mas dous silvestres deuses, que traziam
o pensamento em duas ocupado,
a quem de longe mais que a si queriam,

não lhe ficava monte, vale ou prado,
nem árvore, por onde quer que andavam,
que não soubesse deles seu cuidado.

Quantas vezes os rios que passavam
detiveram seu curso, ouvindo os danos
que até os duros montes magoavam!

Quantas vezes amor de tantos anos
abrandara qualquer vontade isenta,
se, em Ninfas, corações houvesse humanos!

Mas quem de seu cuidado se contenta,
ofereça de longe a paciência,
que Amor de alegres mágoas se sustenta.

Que o moço idálio quis nesta ciência
que se compadecessem dous contrários,
diga-o quem tiver dele experiência.

Indo os deuses, enfim, por montes vários,
exercitando os olhos saudosos,
ao cristalino rio tributários,

toparam dos pés alvos e mimosos
as pisadas na terra conhecidas,
as quais foram seguindo, pressurosos.

Mas encontrando as Ninfas que, despidas,
na clara fonte estavam, não cuidando
que de alguém fossem vistas ou sentidas,

deixaram-se estar quedos, contemplando
as feições nunca vistas, de maneira
que vissem sem ser vistos, espreitando.

Porém a espessa mata, mensageira
da futura cilada, co rugido
dos raminhos düa áspera aveleira,

mostrando a um dos deuses escondido
todas tamanha grita alevantaram
como se fosse o monte destruído.

E logo assi despidas se lançaram
pela espessura, tão ligeiramente
que mais então que os ventos avoaram.

Qual o banho das pombas, quando sente
a fermosa águia, cuja vista pura
não obedece ao sol resplandecente,

empresta-lhe o temor da morte dura
nas asas nova força e, não parando,
cortam o ar e rompem a espessura;

destarte vão as Ninfas que, deixando
de seu despojo os ramos carregados,
nuas por entre as silvas vão voando.

Mas os amantes já desesperados
que, para as alcançar, enfim se viam
nada dos pés caprinos ajudados,

com amorosos brados as seguiam.
Um só, que o outro ainda não tomava
fôlego algum, da pressa que traziam;
mas despois, descansado, se queixava:

PRIMEIRO SÁTIRO

«Ah, Ninfas fugitivas,
que só por não usar humanidade,
os perigos dos matos não temeis!
Para que sois esquivas?
Que inda de nós não peço piadade,
mas dessas alvas carnes que ofendeis.
Ah! Ninfas, não vereis
que Eurídice dessa sorte
fugiu do amante, e não da fera morte?
Também assi Epérie foi mordida
da bíbora escondida.
Olhai que toda a Ninfa na erva verde
que a condição não perde, perde a vida.

Que tigre, ou leão,
que peçonhenta fera venenosa,
ou que inimigo, enfim, vos vai seguindo?
Dum brando coração
que, preso dessa vista rigorosa,
de si para vós foge, andais fugindo?
Olhai que em gesto lindo
não se consente peito tão disforme,
se não quereis que tudo se conforme.
Posto que belas n'água vos vejais,
à fonte não creiais,
que vos traz enganada sua vingança
desta nossa esperança, que enganais.

Mas ah! que não consinto
que nem palavra minha vos ofenda,
posto que me desculpa a mágoa pura.
Ninfas, digo que minto;
que não pode haver nunca quem pretenda
de desfazer em vossa fermosura.
Se amor de tanta dura
por tanto mal tão pouco bem merece
não estranheis minh' alma, que endoudece;
que, se fala doudices de improviso,
sem tento nem aviso,
queira Deus que dureza tão crecida
que não me tire a vida, além do siso.

Cousas grandes e estranhas
tem pelo mundo feito e faz Natura,
que, a quem vos não viu, Ninfas, muito espantam.
Nas líbicas montanhas
os crocodilos feros, de pintura
tão singular, que só coa vista encantam,
a sua voz levantam
tão própria e natural à voz humana
que, a quem a ouve, facilmente engana.
E vós, ó gentes feras, cujo aspeito
o mundo tem sujeito,
tendes de natureza juntamente
a vista e voz de gente, e fero o peito.

Das amorosas leis
com que liga Natura os corações
andais fugindo, Ninfas, na espessura?
Como não vos correis
que haja em vós tão duras condições
que possam mais que a provida Natura?
Se vossa fermosura
é sobrenatural, não é forçado
que assi tenha também o peito irado;
mas antes ao Amor, em cuja mão
os corações estão,
por vossa gentileza tão fermosa
lhe deveis amorosa condição.

Amor é um brando afeito
que Deus no mundo pôs e a Natureza
para aumentar as cousas que criou.
De Amor está sujeito
tudo quanto possui a redondeza;
nada sem este afeito se gerou;
por ele conservou
a causa principal o mundo amado,
donde o pai famulento foi deitado.
As cousas ele as ata e as conforma;
com o mundo reforma
a matéria. Quem há que não o veja?
Quanto meu mal deseja, sempre forma.

Entre as ervas dos prados
não há machos e fêmeas conhecidas
e junto üa da outra permanece.

Não estão carregados
os ulmeiros das vides retorcidas,
onde o cacho enforcado amadurece?
Não vedes que padece
tanta tristeza a rola pela morte
de sua amada e única consorte?
Pois lá no Olimpo, a quantos cativou
Cupido e maltratou?
Melhor que eu o dirá a sutil donzela
que lá na sua tela o debuxou.

Ah, caso grande e grave!
Ah, peitos de diamante fabricados,
e das leis absolutas naturais!
Aquele amor suave,
aquele poder alto que, forçados,
os deuses obedecem, desprezais?
Pois quero que saibais
que contra o fero Amor nunca houve escudo:
o seu costume é vingança em tudo.
Eu vos verei deitar em um momento
suspiros mil ao vento,
lágrimas, tristes prantos, nova dor,
por quem tenha outro amor no pensamento».

Mais quisera dizer
o desditoso amante, que ajudado
se via então da mágoa e da tristeza;
mas foi-lho defender
o outro companheiro, como irado
com tão disforme e áspera dureza.
Aquilo que a rudeza
e a ciência agreste lhe ensinara
imaginando, como que acordara
dum sonho arrancando d'alma um grito.
O mais que ali foi dito,
vós, montes, o direis; e vós, penedos;
que em vossos arvoredos anda escrito.

SÁTIRO SEGUNDO

«Nem vós nacidas sois de gente humana,
nem foi humano o leite que mamastes,
mas d'algüa disforme fera hircana;
lá no Cáucaso monte vos criastes,
daqui tomastes a aspereza insana;
daqui o frio peito congelastes.
Sois Esfinges nos gestos naturais,
que o rasto só de humanas amostrais.

Se vós fostes criadas na espessura,
onde não houve cousa que se achasse,
animal, erva verde, ou pedra dura,
que em seu tempo passado não amasse,
nem a quem a afeição suave e pura
nessa presente forma não mudasse;
porque não deixareis também memória
de vós, em namorada e longa história?

Olhai como, na Arcádia, soterrando
o namorado Alfeu sua água clara
lá na ardente Sicília vai buscando,
por debaixo do mar, a Ninfa cara.
Assi mesmo vereis passar nadando
Ácis, que Galateia tanto amara,
por onde do Ciclope a grande mágoa
converteu do mancebo o sangue em água.

Virai os olhos, Ninfas, à ericina
espessura; vereis ali tornar-se
Egéria em fonte clara e cristalina,
pela morte de Numa destilar-se.
Olhai que a triste Bíblis vos ensina,
com perder-se de todo e transformar-se
em lágrimas; que, enfim, puderam tanto
que acrecentaram sempre o verde manto.

Se entre as claras águas houve amores,
os penedos também foram perdidos.
Olhai os dous conformes amadores,
no monte Ida em pedra convertidos:
Leteia, por cair em vãos errores,
de sua fermosura procedidos;
Oleno, porque a culpa em si tomava,
por não ver castigar quem tanto amava.

Tomai exemplo e vede em Cipro aquela
por quem Ífis no laço pôs a vida.
Também vereis em pedra a Ninfa bela
cuja voz foi por Juno consumida;
e, se queixar-se quer de sua estrela,
a voz extrema só lhe e concedida.
E tu também, ó Dáfnis, que trouxeste
primeiro ao monte o doce verso agreste.

Tamanho amor tinha a branda amiga,
que em inimiga, enfim, se foi tornando;
porque outra Ninfa estranha o sojiga,
suas mágicas ervas vai buscando.
Olhai a crua dor a quanto obriga:
que, por vingar sua ira, transformando
se foi em pedra. Ó dura confusão!
Despois lhe pesaria; mas em vão.

Olhai, Ninfas, as árvores alçadas,
a cuja sombra andais colhendo flores,
como em seu tempo foram namoradas,
que inda agora o tronco sente as dores.
Vereis também, se fardes alembradas,
como a cor das amoras e de amores;
em sangue dos amantes na verdura
testemunha e de Tisbe a sepultura.

E lá pela odorífera Sabeia
não vedes que, de lágrimas daquela
que com seu pai se ajunta e se recreia,
Arábica se enriquece e vive dela?
Vede mais a verde árvore peneia,
que foi já noutro tempo Ninfa bela
e Ciparisso, angélico mancebo,
ambos verdes com lágrimas de Febo.

Está o moço de Frígia delicado
no mais alto arvoredo convertido,
que tantas vezes fere o vento, irado;
galardão de seus erros merecido,
que, da alta Berecíntia sendo amado,
por üa ninfa baixa foi perdido;
e a deusa a quem perdeu do pensamento
quis que também perdesse o entendimento.

O súbito furor lhe afigurava
que o monte, as casas e árvores caíam;
já dos pudicos membros se privava,
que a deusa e a fúria grande o constrangiam.
Já no indino monte se lançava;
de sua morte as feras se doíam;
destarte perdeu Átis na espessura,
despois de tantas perdas, a figura.

Lembre-vos quando as gentes Celebravam
em Grécia as grandes festas de Lieu,
onde as fermosas Ninfas se juntavam
e os sacros moradores do Liceu.
Todos em doce sono se ocupavam
pelo monte despois que anoiteceu;
mas o deus do Helesponto não dormia,
que um novo amor o sono lhe impedia.

Mas ela, enfim, os braços estendendo,
em ramos se lhe foram transformando;
em raízes os pés se vão torcendo,
e o nome Loto só lhe vai ficando.
Vede, Napeias, este caso horrendo,
que vos está de longe ameaçando.
Que assi também aquela a quem seguia
o sacro Pã, a forma só perdia.

E que direi de Fílis que, perdida
da saudosa dor em que vivia,
com desesperação enfim trazida
do comprido esperar de dia em dia
por desatar do corpo a triste vida,
atava ao colo a cinta que trazia;
mas o tronco sem folha, pelo monte
Ródope, abraça o lento Demofonte.

Nas boninas também vereis Jacinto,
por quem Febo de si se queixa em vão;
vereis o monte Idálio em sangue tinto,
do neto de seu pai, da mãe irmão.
Chora Vénus a dor do moço extinto,
maldiz o Céu e a Terra com razão;
a Terra, porque logo não se abriu;
o Céu, porque tal morte permitiu.

E tu, constante Clície, a quem falece
a fé de teus amores enganosos,
no louro amante, que de ti se esquece,
se esquecem os teus olhos saudosos.
Nenhum alegre estado permanece,
que são do mundo os gostos mentirosos;
e tu, ó clara luz, por quem suspiras
ainda agora em erva a folha viras.

Trago-vos estas cousas à lembrança,
por que se estranhe mais vossa crueza
com ver que a criação e longa usança
vos não perverte e muda a natureza.
Dou estas lágrimas minhas em fiança
que em tudo quanto está na redondeza
cousa há de Amor isenta, se atentais,
enquanto a vós não virdes, não vejais.

Já vos disse que de Amor sempre tiveram
as cousas insensíveis pena e glória.
Vede as sensíveis como se perderam;
e dir-vos-ei das aves larga história.
Que as penas que em sua alma se sofreram
nas asas lhe ficaram por memória.
E aquele alívio e leve movimento
lhe ficou só por dor do pensamento.

O doce rouxinol e a andorinha,
de onde elas se foram transformando,
senão do puro amor que o Trácio tinha
que, em poupa, inda armado a anda chamando?
Chama sem culpa a mísera avezinha
que, nas areias de Fásis habitando,
do rio toma o nome; e assi se vai
chamando a mãe cruel, e mouro o pai.

Vede a que enjeitou Palas por falar
- que dos amores é maior defeito -
e aquela que sucede em seu lugar,
ambas aves, de Amor usado efeito;
üa, porque fugia ao deus do mar;
outra, porque temera o pátrio leito.
E Cila, que a seu pai pôs em perigo,
só por ser muito amiga do inimigo.

A ele lhe ficaram ainda as cores
da púrpura real que ter soía;
Ésaco, que seguindo seus amores
o trouxe a ver tão cedo o extremo dia:
ou vede os dous tão firmes amadores
que Amor aves tornou na praia fria.
Do rei dos ventos era genro o triste;
mas contra o Fado, enfim, nada resiste.

Estava a triste Alcíone esperando
com longos olhos o marido ausente;
mas os iradas ventos assoprando,
nas águas o afogaram tristemente.
Em sonhos se lhe está representando,
que o coração pressago nunca mente;
só do bem as suspeitas mentirão,
que as do mal futuro certas são.

Ao pranto os olhos seus a triste ensaia;
buscando o mar com eles, ia e vinha,
quando o corpo sem alma achou na praia.
Sem alma o corpo achou, que n' alma tinha!
Nereidas do Egeio, consolai-a,
pois este triste ofício vos convinha!
Consolai-a; saí das vossas águas,
se consolação há em grandes mágoas.

Mas oh, néscio de mim! Que estou falando
das avezinhas mansas e amorosas,
se também teve Amor poder e mando
entre as feras monteses venenosas?
O leão e a leoa, como ou quando
tais formas alcançaram temerosas?
Sabe-o da deusa Dindimene o templo,
e a que o deu a Adónis por exemplo.

Quem fosse a mansa vaca, di-lo-ia;
mas o grão Nilo o diga, que a adora.
Que forma tem a Ursa, saber-se-ia
do Pólo Boreal, onde ela mora.
O caso de Actéon também diria,
em cervo transformado; e melhor fora
que dos olhos perdera a vista escura
que escolher nos seus galgos sepultura.

(daqui se tiraram duas oitavas)

Tudo isto Actéon viu na fonte clara,
aonde a si de improviso em cervo viu;
que assi quem destarte ali o topara,
que se mudasse em cervo permitiu.
Mas, como o triste amante em si notara
a desusada forma, se partiu.
Os seus, que o não conhecem, o vão chamando;
e, estando ali presente, o vão buscando.

Cos olhos e co gesto lhes falava,
que a voz humana já mudada tinha.
Qualquer deles por ele então chamava,
e a multidão dos cães contra ele vinha.
Que viesse ver um cervo lhe gritava.
"Actéon, aonde estás? Acude asinha!
Que tardar tanto é este?" –- lhe dizia.
"É este, é este", o eco respondia.

Quantas cousas em vão estou falando,
ó esquivas Napeias, sem que veja
o peito de diamante um pouco brando
de quem meu dano tanto só deseja!
Pois, por mais que de mim andeis tirando,
e por mais longa, enfim, que a vida seja,
nunca em mim se verá tamanha dor
que Amor a não converta em mais amor.

Aqui, ó Ninfas minhas, vos pintei
todo de amores um jardim suave;
das aves, pedras, águas vos contei,
sem me ficar bonina, fera ou ave.
Se o amor dos peitos que deixei,
que dos contentamentos tem a chave,
por dita em tempo algum determinasse
que de tão longos danos vos pesasse,

quanto mais devagar vos contaria
de minha larga história, e não alheia?
E com quanta mais água regaria,
de contente, que o rio a branca areia?
Entre os contentamentos me seria
este um não cuidado, e grande ideia,
e vós, gostando deste estado ufano,
zombáreis então de vosso engano.

Mas com quem falo, ou que estou gritando,
pois não há nos penedos sentimento?
Ao vento estou palavras espalhando;
a quem as digo, corre mais que o vento.
A voz e a vida a dar me estão tirando
e não me tira o tempo o pensamento.
Direi, enfim, as duras esquivanças,
que só na morte tenho as esperanças».

Aqui, o triste Sátiro acabou,
com saluços que a alma lhe arrancavam.
E os montes insensíveis, que abalou,
nas últimas repostas o ajudavam,
quando Febo nas águas se encerrou
cos animais que o mundo alumiavam,
e co luzente gado apareceu
a celeste Pastora pelo Céu.


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ALICUTO, pescador; AGRÁRIO, pastor



Ao Duque de Aveiro:


A rústica contenda desusada
entre as Musas dos bosques, das areias,
de seus rudos cultores modulada

– a cujo som, atónitas e alheias,
do monte as brancas vacas estiveram
e do rio as saxátiles lampreias –,

desejo de cantar; que se moveram
os troncos e as avenas dos pastores,
e os silvestres brutos suspenderam.

Não menos o cantar dos pescadores
as ondas amansou do alto pego,
e fez ouvir os mudos nadadores.

E se, por sustentar-se, o Moço cego
nos trabalhos agrestes a alma inflama,
o que é mais próprio no ócio e no sossego,

mais maravilhas dando a voz da fama,
no mesmo mar undoso e vento feio
brasas roxas acende a roxa flama.

Vós, ó ramo de um tronco alto e sombrio,
cuja frondente coma já cobriu
de Luso todo o gado e senhorio,

e cujo são madeiro já saiu
a lançar a forçosa e larga rede
no mais remoto mar que o mundo viu;

e vós, cujo valor tão alto excede
que cantá-lo em voz alta e divina
a fonte de Parnaso move a sede;

ouvi da minha humilde sanfonina
a harmonia que vós alevantais
tanto, que de vós mesmo a fazeis dina.

E se, agora que afábil me escutais,
não ouvirdes cantar com alta tuba
o que vos deve o mundo que dourais;

se os Reis avós vossos, que de Juba
os reinos devastaram, não ouvis
que nas asas do verso excelso suba;

se não sabem as frautas pastoris
pintar de Toro os campos, semeados
de armas, corpos fortes e gentis,

por um moço animoso sustentados
contra o índomo pai de toda Espanha,
contra a Fortuna vã e injustos Fados;

um moço, cujo esforço, ânimo e manha
fez decer do Olimpo o duro Marte
e dar-lhe a quinta esfera, que acompanha;

se não sabem cantar a menos parte
do sapiente peito e grão conselho
que pôde, ó Reino ilustre, descansar-te;

peito que o douto Apolo fez, vermelho,
deixar o sacro Monte, e as Nove irmãs
diz que a ele se afeitem, como a espelho:

saberão só cantar as suas vãs
contendas de Alicuto vil e Agrário,
um de escamas coberto, outro de lãs.

Vereis, Duque sereno, o estilo vário,
a nós novo, mas noutro mar cantado
de um, que só foi das Musas secretário:

o pescador Sincero, que amansado
tem o pego de Pócrita co canto
pelas sonoras ondas compassado.

Deste seguindo o som, que pode tanto,
e misturando o antigo Mantuano,
façamos novo estilo, e novo espanto.

Partira-se do monte Agrário insano
para onde a força só do pensamento
lhe encaminhava o lasso peso humano.

Embebido num longo esquecimento
de si, e do seu gado e pobre fato,
após dum doce sonho e fingimento,

rompendo as silvas hórridas do mato,
vai por cima de outeiros e penedos,
fugindo, enfim, de todo humano trato.

Ante os seus olhos leva os olhos ledos
da branca Dinamene, que enverdece,
só co meneio, os vales e rochedos.

Ora se ri consigo, quando tece
na fantasia algum prazer fingido;
ora fala; ora mudo se entristece.

Qual a tenra novilha que corrido
tem montanhas fragosas e espessuras
por buscar o cornígero marido

e, cansada, nas húmidas verduras
cair se deixa ao longo de um ribeiro,
já quando as sombras vêm descendo escuras,

e nem coa noite ao vale seu primeiro
se lembra de tornar, como soía,
perdida pelo bruto companheiro;

tal Agrário chegado, enfim, se via
onde o grão pego horríssono suspira
numa praia arenosa, húmida e fria.

Tanto que ao mar estranho os olhos vira,
tornando em si, de longe ouviu tocar-se
de douta mão não vista e nova lira.

Fê-lo o som desusado desviar-se
para onde mais soava, desejando
de ouvir e conversar, e de provar-se.

Não tinha muito espaço andado, quando
nüa concavidade de um penedo,
que pouco e pouco fora o mar cavando,

topou cum pescador que, pronto e quedo,
nüa pedra assentado, brandamente
tangendo, fazia o mar sereno e ledo.

Mancebo era de idade florecente,
pescador grande do alto, conhecido
pelo nome de toda a húmida gente.

Alicuto se chama, que perdido
era pela fermosa Lemnoria;
Ninfa que tem o mar enobrecido.

Por ela as redes lança noite e dia,
por ela as ondas túmidas despreza;
por ela sofre o sol e a chuva fria.

Co seu nome mil vezes a braveza
dos ventos feros amansou co verso,
que remove das rochas a dureza.

E agora, em som de voz suave e terso,
está seu nome aos ecos ensinando
por estilo do agreste som diverso;

do qual Agrário, atónito, aflouxando
da fantasia um pouco seu cuidado,
suspenso esteve, os números notando.

Mas Alicuto, vendo-se estorvado
pelo pastor da música divina,
alevantando o rosto sossegado,

lhe diz assi: «Vaqueiro da campina,
que vens buscar as arenosas praias,
onde a bela Anfitrite só domina?

Que razão há, pastor, por que te saias
para o nosso escamo e vil terreno
dos mui floridos mirtos e altas faias?

Que se agora o mar vês brando e sereno,
e estenderem-se as ondas pela areia,
amansadas das águas com que peno,

verás logo o como desenfreia
Eolo o vento pelo mar undoso,
de sorte que Neptuno o arreceia.»

Responde Agrário: «Ó músico e amoroso
pescador, eu não venho a ver o lago
bravo quieto, ou o vento brando e iroso;

mas o meu pensamento, com que apago
as flamas ao desejo, me trazia
sem ouvir e sem ver, suspenso e vago,

até que a tua angélica harmonia
me acordou, vendo o som com que aqui cantas
a tua perigosa Lemnoria.

Mas, se de ver-me cá no mar te espantas,
eu me espanto também do estilo novo
com que as ondas horríssonas quebrantas;

o qual, posto que certo louvo e aprovo,
desejo de provar contra o silvestre
antigo pastoril, que eu mal renovo.

E tu, que no tocar pareces mestre,
podes julgar se há clara diferença
entre o novo marítimo e o campestre.»

«Não há – disse Alicuto – em mim detença;
mas antes alvoroço, inda que veja
que essa tua confiança só me vença.

Mas, por que saibas que nenhüa enveja
os pescadores têm aos pastores,
no som que pelo mundo se deseja,

toma a lira na mão, que os moradores
do vítreo fundo vejo já juntar-se
para ouvir nossos rústicos amores.

E bem vês pela praia apresentar-se
nas conchas vária cor à vista humana,
e o mar vir por antre elas e tornar-se.

Sossegada do vento a fúria insana,
encrespa brandamente o ameno rio
que seu licor aqui mistura e dana.

Este penedo côncavo e sombrio,
que de cangrejos vês estar coberto,
nos dá abrigo do sol, quieto e frio.

Tudo nos mostra, enfim, repouso certo,
e nos convida ao canto, com que os mudos
peixes saem, ouvindo, ao ar aberto.»

Assi se desafiam estes rudos
poetas, nos ofícios discrepantes,
nos engenhos, porém, sutis e agudos.

E já mil companheiros circunstantes
estavam para ouvir, e aparelhavam
ao vencedor os prémios semelhantes,

quando já as liras súbito tocavam;
Agrário começava, e da harmonia
os pescadores todos se admiravam.

E destarte Agrário respondia:

AGRÁRIO

Vós, semicapros deuses do alto monte,
Faunos longevos, Sátiros, Silvanos;
e vós, deusas do bosque e clara fonte,
ou dos troncos que vivem largos anos;
se tendes pronta um pouco a sacra fronte
a nossos versos rústicos e humanos,
ou me dai já a coroa do loureiro,
ou penda a minha lira dum pinheiro.

ALICUTO

Vós, húmidas deidades deste pego,
Tritões cerúleos, Próteo, com Palemo;
e vós, Nereidas do sal em que navego,
porque do vento as fúrias pouco temo:
se às vossas ricas aras nunca nego
o congro nadador na pá do remo,
não consintais que a música marinha
vencida seja aqui da lira minha.

AGRÁRIO

Pastor se fez um tempo o Moço louro,
que do Sol as carretas move e guia;
ouviu o rio Anfriso a lira de ouro
que o seu sacro inventor ali tangia.
Io foi vaca; Júpiter foi touro;
mansas ovelhas junto da água fria
guardou fermoso Adónis; e tornado
em bezerro Neptuno foi já achado.

ALICUTO

Pescador já foi Glauco, o qual agora
deus é do mar; e Próteo focas guarda.
Naceu no pego a deusa, que é senhora
do amoroso prazer, que sempre tarda.
Se foi bezerro o deus que o mar adora
também já foi delfim; e quem resguarda
verá que os moços pescadores eram
que o escuro enigma ao Vate deram.

AGRÁRIO

Fermosa Dinamene, se dos ninhos
os implumes penhores já furtei
à doce filomela, e dos murtinhos
para ti, fera! as flores apanhei;
e se os crespos medronhos nos raminhos
a ti, com tanto gosto, apresentei,
porque não dás a Agrário desditoso
um só revolver de olhos piadoso?

ALICUTO

Para quem trago eu de água, em vaso cavo,
os curvos camarões vivos saltando?
Para quem as conchinhas ruivas cavo,
na praia os brancos búzios apanhando?
Para quem, de mergulho, no mar bravo,
os ramos de coral venho arrancando
senão para a fermosa Lemnoria
que cum só riso a vida me daria?

AGRÁRIO

Quem viu já o desgrenhado e crespo Inverno
de altas nuvens vestido, hórrido e feio,
enegrecendo a vista o Céu superno,
quando arranca os troncos o rio cheio,
raios, chuvas, trovões, um triste inferno,
mostra ao mundo um pálido receio;
tal é o amor cioso a quem suspeita
que outrem de seus trabalhos se aproveita.

ALICUTO

Se alguém viu pelo alto o sibilante
furor, deitando flamas e bramidos,
quando as pasmosas serras traz diante,
hórrido aos olhos, hórrido aos ouvidos,
a braços derrubando o já nutante
mundo, cos elementos destruídos
assi me representa a fantasia
a desesperação de ver um dia.

AGRÁRIO

Minh'alva Dinamene, a Primavera,
que os campos deleitosos pinta e veste
e, rindo-se, üa cor aos olhos gera
com que na terra vêem o arco celeste;
o cheiro, rosas, flores, a verde hera,
com toda a fermosura amena, agreste,
não é para meus olhos tão fermosa
como a tua, que abate o lírio e rosa.

ALICUTO

As conchinhas da praia que apresentam
a cor das nuvens, quando nace o dia;
o canto das Sirenas, que adormentam;
a tinta que no múrice se cria;
navegar pelas águas que se assentam
co brando bafo quando a sesta é fria,
não podem, Ninfa minha, assi aprazer-me
como ver-te üa hora alegre ver-me.

AGRÁRIO

A deusa que na líbica alagoa
em forma virginal apareceu,
cujo nome tomou, que tanto soa,
os olhos belos tem da cor do céu;
garços os tem; mas üa, que a coroa
das fermosas do campo mereceu,
da cor do campo os mostra, graciosos.
Quem diz que não são estes os fermosos?

ALICUTO

Perdoem-me as deidades; mas tu, diva,
que no líquido mármol és gerada,
a luz dos olhos teus, celeste e viva,
tens por vício amoroso atravessada;
nós petos lhe chamamos; mas quem priva
do dia o lume, baixa e sossegada,
traz a dos seus nos meus, que o não nego;
e com tudo isso inda assi estou cego.

Assi cantavam ambos os cultores
do monte e praia, quando os atalharam:
a um, pastores; a outro, pescadores;

e quaisquer a seu vate coroaram
de capelas idóneas e fermosas,
que as Ninfas lhe teceram e ordenaram:

a Agrário, de murtinhos e de rosas;
a Alicuto, de um fio de torcidos
búzios e conchas ruivas e lustrosas.

Estavam na água os peixes embebidos,
coas cabeças fora e quase em terra;
os músicos delfins estão perdidos.

Julgavam os pastores que na serra
o cume e preço está do antigo canto;
que quem o nega contra as Musas erra.

Dizem os pescadores que outro tanto
tem da sonora frauta quanto teve
o campo pastoril de antigo Manto.

Mas já o pastor de Admeto o carro leve
molhava n'água amara, e compelia
a recolher a roxa tarde e breve;
e foi fim da contenda o fim do dia.



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PISCATÓRIA




Arde por Galateia branca e loura
Sereno, pescador pobre, forçado
de üa estrela cruel que à míngua moura.

Os outros pescadores têm lançado
no Tejo as redes; ele só fazia
este queixume ao vento descuidado:

«Quando virá, fermosa Ninfa, o dia
em que te possa dar a conta estreita
desta doudice triste e vã porfia?

Não vês que me foge a alma e que me enjeita,
buscando num só riso da tua boca,
nos teus olhos azuis, mansa colheita?

Se a esse espírito algüa mágoa toca,
se de Amor fica nele üa pegada,
que te vai, Galateia, nesta troca?

Dar-te-ei minha alma; lá ma tens roubada;
não ta demandarei; dá-me por ela
üa só volta de olhos descuidada.

Se muito te parece, e minha estrela
não consentir ventura tão ditosa,
dou-te as asas do Amor perdidas nela.

Que mais te posso dar, Ninfa fermosa,
inda que o mar de aljôfar me cubrira
toda esta praia leda e graciosa?

Amansam ondas, quebra o vento a ira;
minha tormenta triste não sossega;
arde o peito em vão, em vão suspira.

Ao romper d'alva anda a névoa cega
sobre os montes da Arrábida viçosos,
enquanto a eles a luz do sol não chega.

Eu vejo aparecer outros fermosos
raios, que a graça e cor ao céu roubaram;
ficam meus olhos cegos mais saudosos.

Quantas vezes as ondas se encresparam
com meus suspiros! Quantas com meu pranto
se pararam com mágoa e me escutaram!

Se na força da dor a voz levanto,
e ao som do remo que a água vai ferindo
por alta lüa meu cuidado canto,

os maviosos delfins me estão ouvindo;
a noite sossegada; o mar, calado.
Só, Galateia, foges e vás rindo.

Estranhas, porventura, o mar cercado
da fraca rede, a barca ao vento solta,
e um pobre pescador aqui lançado?

Antes que o sol dê no céu üa volta
se pode melhorar minha ventura,
como acontece aos outros, n'água envolta.

Igual preço não é da fermosura
areia de ouro, que o rico Tejo espraia,
mas um amor que para sempre dura.

Vejam teus olhos, bela Ninfa, a praia;
verás teu nome na mimosa areia.
Nunca sobre ele o mar com fúria saia,

que até agora nem vento e ar salteia!
Três dias há que escrito aqui o deixou
Amor, guardando-o a toda a força alheia.

Ele com suas mãos mesmo ajudou
escolher estas conchas que, guardando,
üa e üa para ti só ajuntou.

Um ramo te colhi de coral brando;
antes que o ar lhe desse, parecia
o que eu de tua boca estou cuidando.
Ditoso se o soubesse inda algum dia!


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UMBRANO e FRONDÉLIO, pastores



À morte de D. António de Noronha, que morreu em África,
e à morte de D. João III de Portugal e de D. Joana, mãe de
el-rei D. Sebastião:


UMBRANO

Que grande variedade vão fazendo,
Frondélio amigo, as horas apressadas!
Como se vão as cousas convertendo
em outras cousas várias e inspiradas!
Um dia a outro dia vai trazendo
por suas mesmas horas já ordenadas;
mas quão conformes são na quantidade,
tão diferentes são na qualidade.

Eu vi já deste campo as várias flores
as estrelas do céu fazendo enveja;
vi andar adornados os pastores
de quanto polo mundo se deseja;
e vi co campo competir nas cores
os trajos, de obra tanta e tão sobeja
que, se a rica matéria não faltava,
a obra, de mais rica, sobejava.

E vi perder seu preço às brancas rosas
e quase escurecer-se o claro dia
diante düas mostras perigosas,
que Vénus, mais que nunca, engrandecia;
enfim, vi as pastoras tão fermosas
que o Amor de si mesmo se temia;
mas mais temia o pensamento, falto
de não ser para ter temor tão alto.

Agora tudo está tão diferente
que move os corações a grande espanto;
e parece que Júpiter potente
se enfada já de o mundo durar tanto.
O Tejo corre turvo e descontente,
as aves deixam seu suave canto;
e o gado, em ver que a erva lhe falece,
mais que de a não comer nos emagrece.

FRONDÉLIO

Umbrano irmão, decreto é da Natura,
inviolável, fixo e sempiterno,
que a todo o bem suceda desventura
e não haja prazer que seja eterno:
ao claro dia segue a noite escura,
ao Verão suave, o duro Inverno,
e se há i quem saiba ter firmeza,
é somente esta lei de Natureza.

Toda alegria grande e sumptuosa
a porta abrindo vem ao triste estado;
se üa hora vejo alegre e deleitosa,
temendo estou do mal aparelhado.
Não vês que mora a serpe venenosa
entre as flores do fresco e verde prado?
Não te engane nenhum contentamento,
que mais instável é que o pensamento.

E praza a Deus que o triste e duro Fado
de tamanhos desastres se contente,
que sempre um grande mal inopinado
é mais do que o espera a incauta gente;
que vejo este carvalho que, queimado
tão gravemente foi do raio ardente.
Não seja ora prodígio que declare
que o bárbaro cultor meus campos are.

UMBRANO

Enquanto do seguro azambujeiro
nos pastores de Luso houver cajados,
e o valor antigo que primeiro
os fez no mundo tão assinalados,
não temas tu, Frondélio companheiro,
que em nenhum tempo sejam sojugados,
nem que a cerviz indómita obedeça
a outro jugo algum que se ofereça.

E posto que a soberba se levante
do imigo, a torto e a direito,
não creias tu que a força repugnante
do fero nunca já vencido peito
que, desde quem possui o monte Atlante
até onde bebe o Hidaspe tem sujeito,
o possa nunca ser de força alheia,
enquanto o sol a terra e o céu rodeia.

FRONDÉLIO

Umbrano, a temerária segurança,
que em força ou em razão não se assegura,
é falsa e vã; que a grande confiança
não é sempre ajudada da ventura.
Que, lá junto das aras da esperança
Némesis moderada, justa e dura,
um freio lhe está pondo e lei terrível:
que os limites não passe do possível.

E se atentas bem os grandes danos
que se nos vão mostrando cada dia,
porás freio também a esses enganas
que te está afigurando a ousadia.
Tu não vês como os lobos tingitanos,
apartados de toda a covardia,
matam os cães, dos gados guardadores,
e não somente os cães, mas os pastores?

E o grande curral, seguro e forte,
do alto monte Atlas, não ouviste
que com sanguinolenta e fera morte
despovoado foi por caso triste?
Oh, caso desastrado Oh, dura sorte,
contra quem força humana não resiste!
Que ali também da vida foi privado
Tiónio meu, ainda em flor cortado!

UMBRANO

De lágrimas me banha todo o peito
desse caso terrível a memória,
quando vejo quão sábio e quão perfeito
e quão merecedor de longa história
era esse teu pastor que, sem direito,
deu às Parcas a vida transitória.
Mas não há i quem de erva o gado farte,
nem do juvenil sangue o fero Marte!

Porém, se te não for muito pesado
– já que a triste morte me lembraste –,
cantares desse caso desastrado
aqueles brandos versos que cantaste
quando ontem, recolhendo o manso gado,
de nós outros pastores te apartaste...
Que eu também, que as ovelhas recolhia,
não te podia ouvir como queria.

FRONDÉLIO

Como qués que renove no pensamento
tamanho mal, tamanha desventura?
Porque espalhar suspiros vãos ao vento,
pera os que tristes são, é falsa cura.
Mas pois também te move o sentimento
da morte de Tiónio, triste e escura,
eu porei teu desejo em doce efeito,
se a dor me não impedir a voz do peito.

UMBRANO

Canta agora, pastor, que o gado pace
antre as húmidas ervas, sossegado;
e lá nas altas serras, onde nace,
o sacro Tejo, à sombra recostado,
com seus olhos no chão, a mão na face,
está para te ouvir aparelhado;
e em silêncio triste estão as Ninfas,
dos olhos estilando claras linfas.

O prado, as flores brancas e vermelhas
está suavemente apresentando;
as doces e solícitas abelhas
com um brando sussurro vão voando;
as mansas e pacíficas ovelhas,
do comer esquecidas, inclinando
as cabeças estão ao som divino
que faz, passando, o Tejo cristalino.

O vento dantre as árvores respira,
fazendo companhia ao claro rio;
nas sombras, a ave gárrula suspira,
suas mágoas espalhando ao vento frio.
Toca, Frondélio, toca a doce lira;
que, daquele verde álamo sombrio,
a branda filomela, entristecida,
ao saudoso canto te convida.

Canta FRONDÉLIO:

Aquele dia as águas não gostaram
as mimosas ovelhas, e os cordeiros
o campo encheram d'amorosos gritos.
Não se dependuraram dos salgueiros
as cabras, de tristeza; mas negaram
o pasto a si, e o leite aos cabritos.
Prodígios infinitos
mostrava aquele dia,
quando a Parca queria
princípio dar ao fero caso triste.
E tu também, ó corvo, o descobriste,
quando da mão direita em voz escura,
voando, repetiste
a tirânica lei da morte dura.

Tiónio meu, o Tejo cristalino
e as árvores que tu já desamparaste,
choram o mal de tua ausência eterna.
Não sei porque tão cedo nos deixaste!
Mas foi consentimento do Destino,
por quem o mar e a terra se governa.
E a noite sempiterna,
que tu tão cedo viste,
cruel, acerba e triste,
sequer de tua idade não te dera
que lograras a fresca Primavera?
Não usara connosco tal crueza,
que nem nos montes fera
nem pastor há no campo sem tristeza.

Os Faunos, certa guarda dos pastores,
já não seguem as Ninfas na espessura,
nem as Ninfas aos cervos dão trabalho.
Tudo, como vês, é cheio de tristura:
às abelhas o campo nega as flores,
e às flores a aurora nega o orvalho.
Eu que, cantando, espalho
tristezas todo o dia
a frauta que soía
mover as altas árvores, tangendo,
se me vai de tristeza enrouquecendo
que tudo vejo triste neste monte;
e tu também, correndo,
manas envolta e triste, ó clara fonte!

As Tágides no rio e na aspereza,
no monte as Oreadas, conhecendo
quem te obrigou ao duro e fero Marte,
como geral sentença vão dizendo
que não pode no mundo haver tristeza
em cuja causa Amor não tenha parte.
Porque assi, destarte,
nos olhos saudosos,
nos passos vagarosos,
no rosto, que o Amor e a fantasia
da pálida viola lhe tingia,
a todos de si dava sinal certo
do fogo que trazia,
que nunca soube Amor ser encoberto.

Já diante dos olhos lhe voavam
imagens e fantásticas pinturas
e exercícios do falso pensamento;
e pelas solitárias espessuras,
entre os penedos sós, que não falavam,
falava e descobria seu tormento.
Num longo esquecimento
de si todo embebido,
andava tão perdido
que, quando algum pastor lhe perguntava
a causa da tristeza que mostrava,
como quem para penas só vivia,
sorrindo, lhe tornava:
«Se não vivesse triste, morreria.»

Mas como este tormento o assinalou
e tanto no seu rosto se mostrasse,
entendido mui bem do pai sesudo,
por que do pensamento lho tirasse,
longe da causa dele o apartou;
porque, enfim, longa ausência acaba tudo.
Mas, o falso Marte rudo,
das vidas cobiçoso!
Que, aonde o generoso
peito ressuscitava em tanta glória
de seus antecessores a memória,
ali, fero e cruel, lhe destruíste,
por injusta vitória,
primeiro que o cuidado, a vida triste.

Parece-me, Tiónio, que te vejo
por tingires a lança cobiçoso
naquele infido sangue mauritano,
no hispano ginete, belicoso,
que ardendo também vinha no desejo
de derrubar por terra o Tingitano.
Oh, confiado engano!
Oh, encurtada vida!
Que a virtude, oprimida
da multidão forçosa do inimigo,
não pôde defender-se do perigo,
porque assi o Destino o permitiu;
e assi levou consigo
o mais gentil pastor que o Tejo viu.

Qual o mancebo Euríalo, enredado
entre o poder dos Rútulos, fartando
as iras da soberba e dura guerra,
do cristalino rosto a cor mudando,
cujo purpúreo sangue derramado
pelas alvas espaldas tinge a serra,
que, como flor que a terra
lhe nega o mantimento,
– porque o tempo avarento
também o largo humor lhe tem negado –,
o colo inclina, lânguido e cansado,
tal te pinto, Tiónio, dando o esprito
a Quem to tinha dado,
que este é somente eterno e infinito.

Da boca congelada a alma pura,
co nome juntamente da inimiga
e excelente Marfida, derramava.
E tu, gentil Senhora, não te obriga
a pranto sempiterno a morte dura
de quem por ti somente a vida amava?
Por ti, aos ecos dava
acentos numerosos;
por ti, aos belicosos
exercícios se deu do fero Marte.
E tu, ingrata, o amor já noutra parte
porás, como acontece ao fraco intento;
que, enfim, enfim, destarte
se muda o feminino pensamento.

Pastores deste vale ameno e frio,
que de Tiónio o caso desastrado
quereis nas altas serras que se cante:
um túmulo, de flores adornado,
lhe edificai ao longo deste rio,
que a vela enfreie ao duro navegante;
e o lasso caminhante,
vendo tamanha mágoa,
arrase os olhos d'água,
lendo na pedra dura o verso escrito,
que diga assi: «Memória sou que grito
para dar testemunho em toda parte
do mais gentil esprito
que tiraram do mundo Amor e Marte».

UMBRANO

Qual o quieto sono aos cansados,
debaixo d'algüa árvore sombria
ou qual aos sequiosos e encalmados
o vento respirante e a fonte fria,
tais me foram teus versos delicados,
teu numeroso canto e melodia;
e ainda agora o tom suave e brando
os ouvidos me fica adormentando.

Enquanto os peixes húmidos tiverem
as areosas covas deste rio
e, correndo, estas águas conhecerem
do largo mar o antigo senhorio;
e enquanto estas ervinhas pasto derem
às petulantes cabras, eu te fio
que em virtude dos versos que cantaste
sempre viva o pastor que tanto amaste.

Mas já que pouco a pouco o sol nas falta,
e dos montes as sombras se acrecentam,
de flores mil o claro céu se esmalta
que tão ledas aos olhos se apresentam;
levemos pelo pé desta serra alta
os gados, que já agora se contentam
do que comido têm, Frondélio amigo;
anda, que até o outeiro irei contigo.

FRONDÉLIO

Antes por este vale, amigo Umbrano,
se te aprouver, levemos as ovelhas;
que, se eu por acerto não me engano,
daqui me soa um eco nas orelhas;
o doce acento não parece humano
e, se tu neste caso me aconselhas,
eu quero ver daqui que cousa seja;
que o tom me espanta, e a voz me faz inveja.

UMBRANO

Contigo vou, que quanto mais me achego
mais gentil me parece a voz que ouviste,
peregrina, excelente; e não te nego
que me faz cá no peito a alma triste.
Vês como tem os ventos em sossego?
Nenhum rumor da serra lhe resiste;
nenhum pássaro voa; mas parece
que, do canto vencido, lhe obedece.

Porém, irmão, melhor me parecia
que não fôssemos lá, que estorvaremos;
mas, subidos nesta árvore sombria
todo o vale daqui descobriremos.
Os surrões e cajados, todavia,
neste comprido tronco penduremos;
para subir fica homem mais ligeiro.
Deixa-me tu, Frondélio, ir primeiro.

FRONDÉLIO

Espera, assi, dar-te-ei de pé, se queres;
subirás sem trabalho e sem ruído;
e depois que subido lá estiveres,
dar-me-ás a mão de cima, que é partido.
Mas primeiro me dize, se puderes
ver, donde nace o canto nunca ouvido,
quem lança o doce acento delicado.
Fala, que já te vejo estar pasmado.

UMBRANO

Cousas não costumadas na espessura,
que nunca vi, Frondélio, vejo agora;
fermosas Ninfas vejo na verdura,
cujo divino gesto o Céu namora.
Üa, de desusada fermosura,
que das outras parece ser senhora,
sobre um triste sepulcro, não cessando,
está perlas dos olhas distilando.

De todas estas altas semideias,
que em torno estão do corpo sepultado,
üa, regando as húmidas areias,
de flores tem o túmulo adornado;
outras queimando lágrimas sabeias,
enchem o ar de cheiro sublimado;
outras, em ricos panos, mais avante,
envolvem brandamente um novo infante.

Üa, que dantre as outras se apartou,
com gritos que a montanha entristeceram
diz que, depois que a morte a flor cortou
que as estrelas somente mereceram,
que este penhor caríssimo ficou
daquele a cujo império obedeceram
Douro, Mondego, Tejo e Guadiana,
'té o remoto mar da Taprobana.

Diz mais que, se encontrar este minino
a noite intempestiva, amanhecendo,
que o Tejo, agora claro e cristalino,
tornará a fera Alecto em vulto horrendo;
mas, se for conservado do Destino,
que as estrelas beninas prometendo
lhe estão o largo pasto de Ampelusa,
co monte que em mau ponto viu Medusa.

Este prodígio grande a Ninfa bela
com abundantes lágrimas recita;
mas qual a eclipsada clara estrela
que entre as outras o céu primeiro habita,
tal coberta de negro vejo aquela
a quem só n'alma toca a grã desdita.
Dá cá, Frondélio, üa mão, e sobe a ver
tudo o mais que eu, de dor, não sei dizer.

FRONDÉLIO

Ó triste morte, esquiva e mal olhada,
que a tantas fermosuras injurias!
Daquela deusa, bela e delicada,
sequer algum respeito ter devias.
Esta é por certo Aónia, filha amada
daquele grão Pastor que, em nossos dias
Danúbio enfreia e manda o claro Ibero,
e espanta o morador do Euxínio fero.

Morreu-lhe o excelente e poderoso
– que a isso está sujeita a vida humana –
doce Aónio, de Aónia caro esposo.
Ah! lei dos Fados, áspera e tirana!
Mas o som peregrino e piadoso
com que a fermosa Ninfa a dor engana,
escuta um pouco; nota e vê, Umbrano,
quão bem que soa o verso castelhano.

AÓNIA

Alma y primero amor del alma mia,
spírito dichoso, en cuya vida
la mía estuvo en cuanto Dios quería!

Sombra gentil, de su prisión salida,
que del mundo á la patria te volviste,
donde fuiste engendrada y procedida!

Recibe allá este sacrificio triste
que te afrecen los ojos que te vieron,
si la memoria dellos no perdiste.

Que pues los altos cielos permitieron
que no te acompañase en tal jornada,
y para ornarse solo a ti quisieron;

nunca permitirán que acompañada
de mi no sea esta memoria tuya,
que está de tus despojos adornada.

Ni dejarán, por más que el tiempo huya,
de estar en mí con sempiterno llanto,
hasta que vida y alma se destruya.

Mas tu, gentil spíritu, entretanto
que otros campos y flores vas pisando,
y otras zamponas oyes, y otro canto,

ahora embevecido estés mirando
alla en el Empireo aquella Idea
que el mundo enfrenta y rige con su mando;

ahora te possuya Citerea
en su tercero asiento, o porque amaste,
o porque nueva amante allá te sea;

ahora el Sol te admire, si miraste
cómo vá por los signos, encendido,
las tierras alumbrando que dejaste.

Si en ver estos milagros no has perdido
la memoria de mí, o fué en tu mano
no pasar por las aguas del olvido,

vuelve un poco los ojos á este llano:
verás una que á ti, con triste lloro
sobre este mármol sordo llama en vano.

Pero si entraren en los signos de oro
lágrimas y gemidos amorosos,
que muevan el supremo y santo coro,

la lumbre de tus ojos tan hermosos,
yo la veré muy presto; y podré verte,
que, a pesar de los hados enojosos,
también para los tristes hubo muerte.

6 comentarios:

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